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O longo caminho até 2050

A previsão mais realista indica que a população mundial aumentará em 2 bilhões até 2050. Se pararmos para pensar, nem é tanto crescimento assim, apenas 22% de acréscimo sobre os 7 bilhões atuais. Bem menos do que os 100% de aumento ocorrido entre 1960 e 1999, quando passamos de 3 para 6 bilhões de indivíduos.

O problema é que estes 9 bilhões de humanos em 2050 terão mais acesso a produtos e serviços. Na média, a renda per capita global será muito maior do que em 1960. E mais bem distribuída. Nesse momento você se pergunta como diabos isso pode ser um problema.

Do ponto de vista social não é. Mas do econômico, sim.

Uma das definições mais objetivas da economia é o gerenciamento da escassez. Só coisas finitas são econômicas, por isso não se vende água do mar na praia, gelo no pólo norte ou areia no deserto. (Simplificações absurdas que servem bem ao argumento.)

Assim, em 2050 teremos um problema de escassez de energia. Segundo dados divulgados pela Shell, o consumo energético per capita deve dobrar até 2050. Se hoje precisamos de 65 milhões de barris de petróleo por dia, em 2050 precisaremos de 130 milhões de barris todos os dias. Neste momento, muitos dos campos de extração ativos hoje estarão esgotados e muitos novos poços terão de ser abertos. Se puderem ser encontrados.

O fato é que o petróleo vai demorar para acabar. Sempre acharemos uma nova jazida para suprir nossas necessidades. O problema é que o preço disso será cada vez mais caro.

Imagine um mundo em que cada litro de gasolina custe 20 vezes mais do que hoje. Por R$ 50 o litro, encher um tanque de 40 litros custaria R$ 2.000. Tomando como base o meu consumo, que é entre 3 e 4 tanques por mês, eu precisaria de algo entre R$ 6 e 8 mil por mês, a mais, apenas para manter meu padrão de vida. Apenas uma curta viagem para a praia, aqui no Rio Grande do Sul, custaria R$ 1 mil. Cá entre nós, nenhuma praia gaúcha merece tanto dinheiro.

E vale dizer que isto é apenas um exemplo. Apenas um terço da energia consumida globalmente é utilizada no transporte. O restante move nossas fábricas e gela nossas cervejas, por exemplo. Neste futuro esguelado pela falta de kilowatts, quanto custará transportar e gelar cerveja? Com a energia mais cara, absolutamente tudo fica mais caro.

Então, o que fazer?

Dizer que o mundo não está indo atrás de alternativas é uma leviandade. Pode ser que pudéssemos estar fazendo mais do que isso, ou também menos do que isso. Basicamente, há três abordagens para resolver o problema de falta de energia:

  1. aumentar a produção de energia com as fontes atuais;
  2. desenvolver novas fontes de energia; e
  3. diminuir o consumo de energia.

Embora seja muito mais bacaninha nos concentrarmos nas abordagens 2 e 3, um raciocínio mais sensato aponta a necessidade de trabalhar com as 3 abordagens ao mesmo tempo. Isto é importante principalmente se quisermos evitar o risco de sermos sufocados pela falta de energia, como já ocorreu em 2001 no Brasil.

Outro ponto importante é diversificar a matriz energética, o que não é nada fácil. A energia eólica, a mais bacana de todas, tem recebido investimentos há décadas em países europeus, mas ainda tem uma participação relativamente pequena no todo. Hoje o Brasil tem dezenas de parques de energia eólica, mas somando-se a capacidade máxima de todos, assumindo que sempre tem vento, isso mal chega a 5% da capacidade instalada prevista para a polêmica usina de Belo Monte.

Mesmo durante o período de seca, a previsão é que a usina de Belo Monte produzirá mais do que o dobro de todos os geradores eólicos do Brasil trabalhando na capacidade máxima. Falo isso só para explicar como é difícil e caro achar alternativas não-poluentes e eficazes em grande escala.

Nesse sentido, o Brasil tem se destacado como um player energético global. Nossa principal bandeira é a produção de etanol, campo que tem atraído atenção de estrangeiros e investimentos pesados, como a interessantíssima fábrica de plástico verde da Braskem e a joint venture entre Cosan, a maior produtora de etanol do mundo, e a Shell.

Neste último negócio, os gringos entram com a grana e distribuição, e os usineiros com a tecnologia. Aliás, vale dizer que o etanol Made in Brazil é um excelente exemplo de como a busca por eficiência pode fazer diferença. Nos últimos dez anos a área plantada aumentou 85%, ao passo que a produção de álcool cresceu 130%, e a de açúcar 350%.

Ou seja, o aumento na produção foi maior do que o dobro do crescimento em área plantada.

Semana passada eu fui a um evento no prédio de Engenharia da UFRGS, no qual a maior parte desses dados foram compartilhados. Na ocasião, um dos pontos que provocou maior debate foi a “pegada ecológica” do etanol. Um dos palestrantes, Prof. Dr. Octávio Antonio Valsechi, da UFSCAR, com experiência na produção de etanol, respondeu o seguinte:

“Hoje o etanol brasileiro só não tem emissão zero de carbono porque os caminhões envolvidos na colheita usam diesel comum. Quando isso for trocado para biodiesel, a emissão passará a ser zero. Quer dizer, positiva, pois alguma matéria vegetal sempre permanece no campo, garantindo com isso sequestro de carbono, ainda que pequeno.”

Para quem não sabe, o termo sequestro de carbono é um dos pilares do Protocolo de Kyoto, e é usado para atividades que retiram carbono da atmosfera. No caso da cana de açúcar, ela usa o CO² presente na atmosfera para fazer açúcar.

E você? Também tem acompanhando esses avanços?

Texto de autoria de Daniel Bender. Fonte: Papo de Homem.

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