Três chutes no saco: verdades que você finge não ver

Frequentemente caminhamos pela vida de olhos vendados. E muitas vezes esta não é uma condição involuntária. É incrível como fazemos questão de nos deixar enganar com medo de encarar algumas verdades. Preferimos seguir caindo nos mesmos buracos, alimentando tipos específicos de ilusão com a única finalidade de nos agarrarmos, desesperados como mendigos, a qualquer pequena felicidade.

Para nos libertar disso, a vida costuma dar golpes muito bem aplicados. A única opção é acordar por meio da dor e seguir em frente com a frágil esperança de não repetir os mesmos enganos.

Este texto é uma simulação tosca deste tipo de golpe. É apenas um alerta, uma leve ameaça para relembrá-lo de algumas verdades que você finge não ver. Longe de ser doloroso como aqueles chutes dos quais nos contorcemos só de imaginar. Longe de ser igual a ser surpreendido no erro. Muito longe.

1. VOCÊ NÃO TEM AMIGOS

Dias difíceis sempre voltam. Sempre nos pegam no meio da ascensão e nos fazem lembrar da violência da força da gravidade. Nesses momentos, nada mais justo do que ir atrás dos amigos em busca de apoio.

As situações se repetem e nós já nos pegamos, diversas vezes, precisando de ajuda. Então, de repente, olhamos para os lados e estamos sozinhos. É nesse momento que nos vemos reclamando, sem saber em que direção seguir, já que não conseguiremos chorar as pitangas em nenhum ombro pré-definido.

É interessante notar como temos o hábito de agir baseados em pura politicagem e dar a isso o nome de amizade. Temos a mania de esperar que alguém faça algo por nós e de adicionar boas doses de culpa e amargura quando essas expectativas são quebradas. Ou seja, como volta e meia nos tolhemos pensando “ele é meu amigo, não vou fazer isso”, ficamos extremamente contrariados quando a recíproca não é verdadeira.

O que chamamos de amizade nada mais é do que um conjunto de expectativas mais ou menos definidas. Amigo é aquele que se move dentro desse cercadinho sem reclamar qualquer liberdade além dos limites. Por isso, relações de amizade vão se dissolvendo uma a uma com o decorrer dos anos. Este fenômeno ocorre pelo simples fato de que ninguém tem a obrigação de viver em função dos nossos caprichos e desejos. Os amigos, principalmente, têm a obrigação de não fazê-lo.

“Você não tem amigos” quer dizer, na realidade, que não há verdadeira amizade naquela base romantizada à qual estamos acostumados a encarar certas coisas. Ninguém deve algo a você. Ninguém tem a obrigação de salvá-lo ou consolá-lo. É até errado achar que alguém vai defendê-lo incondicionalmente, em qualquer circunstância. Agir no mundo o tempo inteiro, como se a salvação viesse de maneira inevitável, é preparar-se com carinho para o momento em que a vida virá fodê-lo bem gostoso.

Essa lógica da amizade nos infere de forma que, se formos meninos bonzinhos e agirmos de acordo com os desejos de todos, teremos muitos amigos com quem contar.

Lógica, no meu dicionário, é algo que costuma falhar quando menos esperamos.

2. NINGUÉM PRECISA DE VOCÊ

Você pensa que tem algum talento especial. Acha que saber tocar, cantar, escrever, atuar, programar um robô ou construir uma casa o torna alguém especial. Você acredita nos comentários elogiosos quando faz algo pelos outros. Olha para a sua vida e tem a nítida impressão de que é o personagem principal de uma grande trama cósmica, caminhando rumo ao cumprimento do seu destino.

Não é bem assim que os outros vêem a coisa. Não importa o quanto você seja talentoso, esperto e bonito. Não importa o quanto você já tenha feito, muito provavelmente depois da sua morte será esquecido num tempo não muito longo.

Mesmo numa situação não tão extrema, sua posição no mundo também não significa tanta coisa. Você se considera essencial na empresa onde trabalha? Surpreenda-se ao ser demitido e ver que a empresa segue sem maiores oscilações. Gosta de se autoafirmar por ter uma namorada apaixonada e acredita que ela o ama mais do que a qualquer outro? Tenho certeza que vai doer bastante quando ver as novas fotografias dela apaixonada por outra pessoa.

A verdade é que não interessa em nada o grau de importância que damos às nossas atividades, sentimentos ou intenções. O mundo seguirá sem grandes impactos quando desaparecermos.

3. VOCÊ NÃO É, E NUNCA SERÁ INDEPENDENTE

Você precisou dos seus pais para alimentá-lo, ensiná-lo a falar, andar, levá-lo à escola. Lá teve uma professora que o ensinou a ler e escrever. Houve cozinheiras que fizeram lanches, pedagogas que acompanharam seu desempenho e corrigiram seus péssimos hábitos.

Hoje você é servido por um garçom no restaurante onde almoça todos os dias, pessoa essa que tem todo o poder de sacaneá-lo de forma épica caso você o destrate. Hoje, pessoas alternam-se em turnos para garantir que não faltará energia elétrica quando outras pessoas estiverem fazendo uma cirurgia em você. Engenheiros construíram os prédios onde você mora e trabalha. A água com a qual toma banho e escova os dentes só sai pela torneira porque houve alguém que se dedicou a levá-la até onde você mora. E ela ainda se mantém jorrando, pois há uma pessoa garantindo que isso continue acontecendo.

Não importa se você se dá conta do processo ou não, ele existe. Sempre existirá alguém que faz algo que você não é capaz de fazer. E esse algo provavelmente contribui de uma maneira essencial na sua vida, mesmo que não haja compreensão da sua parte.

O adolescente trancado no quarto talvez não tenha a noção precisa de que existe uma rede de pessoas, de ruas, de bairros, de cidades e de regiões constituindo um todo maior que é o seu país, o sistema capitalista/socialista/qualquer-coisa-ista, o planeta Terra, o sistema solar e o universo. No entanto, tudo isso está operando, seguindo mesmo sem sua aprovação. O universo todo está no seu quarto, quer ele saiba ou não.

Somos tão frágeis e dependentes como éramos quando bebês, aprendendo a caminhar e recebendo papinha na boca. É impossível se virar sozinho. Você sempre vai precisar de outras pessoas. É burrice achar que não precisa e não deve nada a ninguém.

Os pontos cegos

Se, por um lado, costumamos agir dentro desses padrões, por outro, estamos completamente livres para agir de forma diferente. Esses pequenos pontos cegos nada mais são do que isso. Apenas pontos cegos. Basta contemplar um pouco e eles tendem a desaparecer.

A dificuldade é que, frequentemente, nos esquecemos de iluminar estes pontos e eles voltam a ficar obscuros. A partir disso, começamos a agir cegamente outra vez, até que repitamos o processo todo.

Ao mesmo tempo, às vezes até estamos vendo, mas preferimos fingir que não. Parece ser mais fácil fechar os olhos e torcer para que nada disso seja verdade, torcer para que tudo permaneça dando certo até o final da vida, quando poderemos dizer que fizemos tudo direitinho.

O grande lance é que vamos voltar a acreditar em tudo isso, principalmente quando o relacionamento estiver feliz, o emprego pagando bem, os amigos presentes e nos fecharmos em nós mesmos. É o que queremos.

A melhor coisa que pode nos acontecer é ter essas bases destruídas pelo menos uma vez. Se for tudo ao mesmo tempo, melhor ainda. Assim, poderemos verdadeiramente ver e sentir a fragilidade do que tomamos por sólido na vida.

Texto adaptado, de autoria de Luciano Ribeiro. Fonte: Papo de Homem.

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