Você pode não ser você

Ela me falava d’O Estranho Caso do Cachorro Morto. No livro, o protagonista é Christopher Boone, um garotinho que sabe dizer todas as capitais do mundo e números primos até 7.507, mas não tem aptidão social alguma. Ele sofre da síndrome de Asperger.

“É como estar na mente de um autista”, afirmou minha amiga. Estávamos na seção de psicologia da livraria Cultura, uma de suas lojas favoritas. Ela dissecava conceitos científicos entre uma estante e outra. Falou das falhas das mandalas de Jung ao se deparar com o Livro Vermelho, mas apontou que apesar da falhas, ele era melhor que Freud. Eu ouvia tudo aquilo com fascínio e curiosidade.

Uma das mentes mais brilhantes que eu já conheci. Mas, assim como Chris Boone, ela tem problemas de relacionamento, apesar dos milhares de seguidores no Twitter e dos amigos de Facebook.

Para chegar ao status que hoje detém de webcelebridade, ela teve de se diminuir a cada tuíte. Em blocos de 140 caracteres – e eles vinham aos montes todos os dias –, deixava de lado sua inteligência para ser aquilo que esperavam dela: alguém vazio.

Chegamos a conversar sobre isso em um pub:

— Eu prefiro você fora do Twitter.

— Eu sou a mesma pessoa.

— Não é. Lá é como se você tivesse vivido todo esse tempo dentro de uma bolha. De repente, você sai da bolha e descobre um mundo fantástico demais para sua cabeça. Você é uma espécie de Alice, entende?

— Como assim?

— Você muda. Seu comportamento muda. Até seu vocabulário é diferente. Você finge ser bobinha e eu entendo: é preciso nivelar-se aos seus interlocutores. É preciso falar de igual para igual. Mas acho isso um desperdício. Você tem uma mente fascinante demais para se rebaixar a isso, para ser apenas um corpinho.

— Não é bem assim.

— Pode ser coisa da minha cabeça, mas prefiro conversar contigo, e não com sua arroba.

Jonathan Franzen publicou um artigo recentemente sobre novas tecnologias no New York Times. Em “Liking Is for Cowards. Go for What Hurts” (em tradução livre, “Gostar é para os covardes. Escolha o que dói”), ele pondera:

“Se você dedica sua existência a receber “likes” [no Facebook], e se você adota qualquer persona legal necessária para que isso aconteça, isto sugere que você perdeu a esperança de ser amado por quem você realmente é. E se você tiver sucesso em manipular outras pessoas para darem “like” para você, será difícil não sentir, em algum nível, desprezo por essas pessoas, porque eles caíram no seu truque.”

É a evolução do homem. Homo erectus, Homo sapiens, Homo arrobus.

Nessa evolução, as coisas fluem do avesso. O homem é desconstruído – de estratos de carne e osso e personalidade e a coisa toda. É a desfragmentação de quem realmente somos. Viramos avatares.

Você tem milhares de conexões no Facebook e ninguém com quem sair no fim de semana. Você é tendência no Twitter porque só fala coisa interessante mas não sabe conversar nem com seu vizinho.

Amanhã, quando você se olhar no espelho, pergunte-se quem você realmente é.

Autor: Rodolfo Viana. Fonte: Portal Homem.

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Um comentário em “Você pode não ser você

  1. Nunca se pode tanta coisa. Enfim, gostei muito daqui, do seu cantinho :3 muito agradável. Espero que se dê, você passe no meu e dê uma comentada também e se me seguir, eu sigo de volta.

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