O mundo é uma merda por causa das pessoas ruins?

Nesta última semana, num mesmo dia, aconteceram duas coisas com pessoas bem próximas de mim.

De manhã uma senhorinha foi abordada na rua por pessoas com uma história triste, uma chance de fazer caridade e uma promessa de dinheiro fácil. A avozinha nunca teve grandes somas de dinheiro, e pela primeira vez na vida tinha a conta recheada – tinha acabado de vender seu único imóvel. Entregou R$10.000 para os estranhos e foi deixada um ponto de ônibus.

À tarde um amigo me telefonou pedindo ajuda porque havia se acidentado de carro. Estava parado na fila do semáforo, alguém bateu com força atrás dele e prensou seu carro com o da frente. O responsável fugiu no mesmo momento deixando dois carros batidos e uma criança machucada.

(Depois, à noite, vi a notícia de um adolescente que foi agredido e assassinado por outros quatro na frente de uma boate. Estavam com ciúmes de uma menina.)

Pessoas más num mundo ruim

Vejo pelo menos dois jeitos de entender coisas assim. Um deles:

A senhorinha foi burra, gananciosa, irresponsável e inconsequente  Que pague os suados R$10.000 por isso. Os golpistas, bom, são filhos da puta, mas são golpistas – é o que fazem, e quase merecem os parabéns pela habilidade e por se aproveitar da ganância dos outros. O cara que bateu e fugiu, esse é um filho da puta da pior espécie. Merecia apanhar, o cretino. Eu mesmo tive raiva e bateria nele.

Fazemos boletins de ocorrência, pagamos oficinas e guinchos, vamos ao hospital, xingamos, brigamos e ficamos nervosos por mais uns dias, localizamos culpados e seguimos até a próxima merda. As pessoas são más, o mundo é uma merda e o melhor é  bater antes de apanhar.

Estamos confusos e damos nosso melhor

Um outro jeito de ver: desde o primeiro fôlego nesse mundo nos engajamos inadvertidamente numa missão de evitar a dor, a insatisfação, a insegurança e o sofrimento, e de buscar satisfação, conforto, segurança, algum nível de alegria. Sem exceção, o tempo todo, com todas as coisas que fazemos.

E estamos dando o nosso melhor pra isso, ainda que às vezes o nosso melhor seja bem ruim.

Não se engane. O outro também precisa de ajuda

O golpista, a avozinha, os caixas do banco, o cara que bate e foge, os que querem agredir por justiça, a criança machucada que quer ir embora e sua mãe nervosa, os garotos que agridem por ciúmes e os seus advogados, o guincheiro cobrando assinaturas de gente machucada e tonta, os delegados impacientes demais pra atenderem bem, eu que tenho desinteresse (“Por que estou aqui?”) e que escrevo isso, você que já vai pensando em concordar ou discordar – todos no mesmo barco, aspirando por satisfação e fugindo do sofrimento.

A maldade não é algo inerente às pessoas, assim como a gripe não é inerente ao doente. Somos vítimas não exatamente uns dos outros ou de agentes do mal, mas da nossa própria inabilidade, do nosso nervosismo, ignorância, orgulho, preguiça, ciúmes, ansiedade, raiva, tristeza, depressão.

O dito mal é como um surgimento circunstancial e relacional, uma coisa que paira no ar e se instala logo que há chance. E o dito bem, também.

Autor: Fábio Rodrigues. Fonte: Papo de Homem.

 

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