Poder invisível

Num grupo que se tornara amigo já adulto, recordávamos brincadeiras de infância – típica conversa de depois da praia, quando a cabeça se rende ao império do corpo, e o álcool se incumbe de destravar o verbo. É comovente ver renascer, em cada adulto, o olhar brilhante e o riso frouxo da criança que ali dorme – ou, esquecida e silenciada, agoniza. Sinto saudade, mas não sou nostálgico. Não vivo no passado, o passado é que está em mim.

Fascinante na infância é que a imaginação consegue ser mais poderosa que a realidade. Na fase em que a fantasia ainda não se deixou domar pela lógica da razão prática, quando a realidade ainda não asfixiou a criatividade, nem reprimiu a poesia, a fantasia voa livre e solta nas asas da inocência e da ingenuidade. A tristeza de tornar-se adulto não é, digamos, ter que ganhar o pão com o suor do próprio rosto, e as exigências daí decorrentes. A tristeza é ver o crescimento aprisionar a imaginação. E, a partir daí, tudo se amesquinhar: afinal, não vemos as coisas como são, mas como somos.

É puro encantamento a criança que cobre os olhos com a mão e crê que está oculta, que não é mais vista por ninguém. Sua deliciosa lógica é irrepreensível: se não vejo, também não sou vista. Digna do idealismo do bispo de Berkeley: o mundo não existe em si, existe naquilo que apreendo dele. Se não o vejo, ele não existe; e se não existe, não há ninguém para me ver.

Criança, cismei que, colando minha testa à de outra pessoa, saberia o que ela sonhou. Esperto, o meu poder: quem dormiria perto de mim para que colássemos nossas testas, e eu pudesse apreender seu sonho? E quando, enfim, um primo foi surpreendido dormindo na varanda, fui desafiado. Atrevido, aceitei o desafio: colei minha testa à dele e fechei os olhos com a teatral gravidade do charlatão profissional. Ao acordar, instado a narrar o que sonhara, o primo não se lembrava. Inventei-lhe, então, um sonho – com bravatas e patuscadas, cuidando que fossem, como os sonhos, irracionais e incompreensíveis – e o contei com a segurança dos grandes mentirosos. Quatro dos presentes me ridicularizaram – talvez, me tenha faltado convicção, ou talento de ator. Mas, para meu espanto, dois acreditaram.

Brincadeira que mais me divertiu – penso que ainda é comum entre crianças – e que hoje me parece aflitivamente enigmática, era a de ficar invisível. Bastava me concentrar – longa concentração ritualística, em silêncio e sozinho no quarto, de preferência escuro – e, de repente, abrir os olhos… Ninguém mais poderia me ver! Sentia-me superior, imbatível, intangível e poderoso: bastava querer, e entraria em todas as casas e em todos os cômodos. Saberia todos os segredos e intimidades do reino – sabe Deus que reino! Assim, invisível, ia até a sala, ou à cozinha, em passos lentos e altivos para desafiar, provocar os pobres visíveis. E usufruía do glorioso poder de ver tudo e todos sem que pudessem me ver. Nem me dava conta – ou dava, e nem sabia? – de que aquela invisibilidade era a minha própria insignificância: quem se importaria com um garoto esquisito, costeando em silêncio as paredes de casa?

O grave é que até hoje, quando vou a certos lugares, ainda me imagino invisível. Fico quieto, em silêncio, quase sem respirar, contando que ninguém me esteja vendo, enquanto me divirto em vê-los. Com tanta gente querendo aparecer e falando em visibilidade, ficou mais fácil ficar invisível. Quem sabe a brincadeira não volta, e veremos renascer o olhar brilhante e o riso frouxo da criança que agoniza em muitos de nós!? Mas, por favor, entenda: não digo isso porque vivo no passado, mas porque o passado vive em mim.

Alcione Araújo. Publicado no Jornal Estado de Minas, em 16 de janeiro de 2006.

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