Travo quando vejo gente melhor do que eu

A questão é relativamente simples e muito comum: você só entra em bola dividida que vai ganhar.

O ranking imaginário

O dito popular que diz “o que vem de baixo não me atinge” é tão real quanto o oposto. O que vem de cima nos atinge em cheio porque põe em xeque a habilidade superior que imaginamos ter.

Por exemplo, a avaliação de um iletrado sobre o que eu escrevo não me avalia de fato, mas a de um literato sim. No primeiro caso posso me vangloriar, mas sei que o critério é falso. No segundo sinto um olhar que me constrange porque tem base. Afinal, bancar o sabido com quem não entende do assunto é mais fácil.

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Esse ranking imaginário que vivemos é uma loucura sem fim.

Quando eu era mais jovem tentavam me convencer sobre a ideia de céu e inferno. Eu me questionava bastante sobre os critérios que estavam envolvidos nesse julgamento. Como medir quem merece descansar no paraíso? Fazer média aritmética de boas ações? Top 10 da vida? Número de seguidores no Twitter? Difícil dizer.

Mas não tem jeito, criamos métricas malucas para comparar tudo, seja o tamanho do pinto ou do jatinho. Para alguns não tem parada, é o topo ou nada.

Quer dizer que você se acha superior?

Fico me perguntando quais critérios usamos para avaliar se alguém é inferior ou superior a nós e, ao fazer este exercício, percebi que temos o cacoete de olhar sempre para a área que dominamos. O motivo é simples: ninguém quer ser reserva no time em que joga.

Acima de nós existe uma quantidade enorme de pessoas mais sábias, competentes, bem-sucedidas e felizes. Nos comparamos a elas? Não quando queremos sentir leve satisfação pessoal. Nesse caso, sempre buscamos falar mal do colega de trabalho incompetente, do vizinho falido, da namorada de um conhecido.

A crítica é sempre sinal dessa busca por nos ranquear lá no alto e permanecer acima da carne seca. Por isso adoramos assistir reality shows e parar hipnotizados diante de um acidente. Inconscientemente sentimos um alívio mórbido: “antes ele do que eu”.

A inveja está aqui, dentro de mim e de você

Criando esse ranking com critérios aleatórios, sem sentido e favoráveis a nós, criamos uma armadilha à qual vamos sucumbir. Ao colocarmos nosso curriculum vitae lado a lado, chegará o momento inevitável de se comparar com figuras que nem temos noção da real performance real, mas que consideramos ultra-poderosas.

Muitos termos de comparação são bastante irreais, pois estabelecem uma hierarquia nada plausível. Nosso pensamento mágico deduz que o Eike Batista caiu de um pé de árvore de dinheiro e que poderíamos chegar facilmente lá.

Se cada contexto pessoal é único, como e por que invejar o Neymar? Ele treinou muitos chutes e dribles mais vezes que você leu livros na vida, haveria alguma forma razoável de comparação entre vocês?

Persistimos na fantasia de que a qualquer momento acharemos os feijões mágicos que nos levarão direto para o pote de ouro escondido entre as nuvens. A inveja é filha da total ignorância em relação a tempo, proatividade, oportunidade, contatos, trabalho duro.

Inferior sob qual ótica?

A inferioridade que sentimos é evidente quando encontramos colegas de faculdade que aparentemente deram a largada da vida profissional na mesma época. Será realmente que partimos do mesmo ponto?

Aliás, que marcadores de sucesso são utilizados por cada pessoa? Por hábito medimos muita coisa com base no dinheiro, mas e se partirmos de valores distintos? Um workaholic do mercado de ações achará um fracasso o colega que virou jornalista de comportamento e economia. Se os critérios não são claros, como dizer que alguém está errado ou no topo da lista?

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Além do mais, adoramos usar artimanhas para negar qualquer coisa que consideremos uma derrota.  Se a derrota for vergonhosa, distorcemos a realidade para outro lado, justificando: “sou novato, tinha que arriscar”. Tudo para preservar uma imagem cristalina. Difícil deixar trincar nossa autoimagem, né?

Nivelar todo mundo não é o melhor caminho

Devemos então abolir as hierarquias que vivemos? Deixar tudo numa linha horizontal de uma igualdade indistinta? Seria ingenuidade isso.

Muitos estudiosos tentaram estabelecer “hierarquias” humanas de estágios de menor para maior complexidade funcional como Clare Graves (valores), Maslow (necessidades), Ken Wilber (espiritualidade e integral), Cook-Greuter (ego), Freud (estágios da sexualidade), James Fowler (fé) e outros tantos. Estão todos enganados? Não creio.

É natural que haja pessoas com habilidades mais desenvolvidas que as outras. Talvez aceitar que essas diferenças existam sem constrangimento e olhar com real felicidade seja um bom caminho para reconhecer que, no ranking imaginário, alguém passou pelo funil primeiro. E tudo bem, quem sai na frente chama os outros.

Com tudo isso é possível colocar cada pessoa numa tabela do excel numa grande escala humana? Teoricamente ou para fins de recrutamento e seleção sim (ainda que questionável), mas no que concerne ao valor humano intrínseco todos tem o igual direito de pertencer, sem distinção. Daí a base paradoxal dos direitos humanos, diferença na igualdade.

Portanto, enquanto você continuar esperando entrar em bola ganha ou se tiver uma performance intocável, invejável e perfeita, lamento informar, é melhor encomendar o jazigo. Tudo que existe, vivo ou não, vai falhar.

↬ Frederico Mattos, para o Papo de Homem.

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