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Eu, morri mais uma vez

Morri ao começar a escrever esse primeiro post do ano de 2014 do nosso senhor. Mais um ano do calendário ocidental gregoriano, esse aqui embaixo:

calendário gregoriano é um calendário de origem europeia, utilizado oficialmente pela maioria dos países. Foi promulgado pelo Papa Gregório XIII (1502-1585) em 24 de Fevereiro do ano 1582 em substituição do calendário juliano implantado pelo líder romano Júlio César (100 a.C.- 44 a.C.) em 46 a.C.

Como convenção e por praticidade o calendário gregoriano é adotado para demarcar o ano civil no mundo inteiro, facilitando o relacionamento entre as nações. Essa unificação decorre do fato de a Europa ter, historicamente, exportado seus padrões para o resto do globo. ~ Fonte: Wikipédia

Outras maneiras de se datar foram usadas e, assim que foi conveniente, morreram para o começo de uma nova metodologia. Independente da forma de se contar os dias, a coisa mais importante é que todos eles têm em comum um começo e um fim. Um nascimento de algo que surge após a morte do passado.

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Essa é uma necessidade humana, a de encerrar um ciclo, a de nascer para morrer ao final e, finalmente, poder começar tudo de novo. A redenção, o renascimento, a possibilidade de apagar erros e reforçar acertos. É em cima dessa mentira que levamos a nossa existência.

Ontem, dia 31 de dezembro, foi um dos dias de se renovar, de expelir toda a culpa e frustração. Mas é só um marco, considerado o mais significativo. Mas matamos nossas próprias origens uma infinidade de vezes e criamos novas causas, derivações de nós mesmos.

Matei meu primeiro Eduardo – que eu consiga lembrar – por volta dos 13 anos, quando desobedeci minha mãe em frente dela, quando me ordenou para não sair de casa e, num impulso petiz, passei pela porta e fui pra rua brincar.

Lá se foi um Eduardo. Passou pelo portão outra pessoa com características e convicções completamente distintas do garoto que estava lá dentro. Não precisou ser um dia especial para tal, uma data onde se permitem as alterações de caráter. Apenas aconteceu.

De lá pra cá, matei muitos de mim. Estabeleci novos passados, diferenciei demais as expectativas pro futuro. Não há quem possa negar tais atrocidades justificadas e saudáveis para qualquer ser pensante. Me mataram também. Já fui um Eduardo que nunca havia sido traído e tiraram isso de mim. Fui um Eduardo que queria ser poeta, que queria ser músico, um Jim Morrison tupiniquim – mesmo não tendo interesse algum em ser um Jim Morrison – cheio de aspirações sexuais, culturais e artísticas. Hoje, Eduardos depois, tento fincar em minha cabeça que sei, de forma bem estabelecida, quem sou e quem pretendo ser. Balela.

Um Jader, outro Jader e mais um Jader. Só que com menos barba e numa sequência que pode muito bem ser embaralhada
Um Eduardo, outro Eduardo e mais um Eduardo. Só que com menos barba e numa sequência que pode muito bem ser embaralhada.

Nada amargoso, não entendam as palavras com esse tom. Só procuro não expressar contentamento nem outro sentimento positivo exacerbado pra justamente não criar uma catarse desnecessária de que, no ano novo, a vida é nova. Podem, todos aqueles que são partidários da ideia, comemorar a vontade. É um fato inerente a nossa vontade e é esse fator determinante que me faz  ansiar pela maior naturalidade possível no assunto.

Memento Mori, ou “lembre-se de que irá morrer”. É esse o cerne do drama humano filosofado por Schopenhauer sobre nós, os humanos, sermos a única espécie a saber, de fato, o nosso destino de morte. Essa é a nossa tragédia, a nossa cruz que, visto do lado oposto, é a nossa oportunidade de resgate constante, de ascensão sobre nós mesmos. Se a ruína é o que nos resta, façamos das tripas, coração. Façamos dos limões, a tal limonada.

Ontem eu matei o Eduardo que queria escrever esse texto, achando que conseguiria, de maneira ativa e espontânea, escrever algo profundo, cheio de referências, citações, abundantes caminhos apontados com a audácia de qualquer um que queira mostrar para o outro como se deve pensar, agir, viver. Matei com gosto aquele cara bobo que pensava que ia escrever algo recôndito, uma verdade absoluta, um texto denso.

No máximo, aquele Eduardo conseguiria rascunhar um artigo tão fundo quanto um espelho d’água, um simulacro truão onde formandos se juntam, já com suas respectivas gravatas na cabeça, pra tirar a foto do final da festa que lhes garantiram o diploma.

Na verdade, eles estão matando a juventude estúpida que cabe dentro de cada um deles pra ver nascer profissionais do trabalho, pessoas que se encontrarão amarguradas, em algum ponto da vida, porque perceberam que, nesse dia de festa, mataram a única coisa boa que tinham. Ou, para o bem de todos, existirão aqueles que saberão o que assassinar e o que preservar, mesmo que num canto velado, para saber utilizar nos momentos específicos. Mesmo assim, nenhum deles será o mesmo após aquele fim de festa.

Com tudo isso dito, não há o que temer:

não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte e depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou

então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.

Não tenho medo da morte ~ Gilberto Gil

Quem há de temer são os muitos que matamos todos os dias. Hoje morre um Eduardo. Amanhã, quem sabe. Muitas pessoas morrem e assim vamos seguindo nossas vidas, empilhando os corpos nos ombros que nos servem de fardo pra toda a vida e toda a morte.

E que assim seja.

Texto adaptado (descaradamente) do original escrito por Jader Pires, pro Papo de Homem.

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