A gente podia ser mais gentil

Todos os dias, penso em ser mais gentil, mais bondoso, e nas várias coisas que posso fazer para que eu efetivamente me torne essa pessoa melhor que tanto almejo ser. Mas, na prática, não é bem isso o que acontece.

No final das contas, sou repetidamente consumido pelo espírito de competição, pelo eterno cacoete de colocar meus interesses acima de tudo e, também, por um certo desprezo pelos outros. Eu sou esse cara que, volta e meia, mesmo cercado de boas intenções, acaba fazendo uma brincadeira, jogando ironia’zinha metida a besta, e encerro o dia tendo sido um idiota com alguém. Claro que, ainda por cima, se achando o máximo.

Mas eu também sou o cara que, volta e meia, me sinto acuado quando sou o alvo de alguma piadinha que diz uma daquelas verdades cruéis que só o humor é capaz de trazer à tona.

Alternando diariamente entre vítima e algoz, posso garantir que, quase 100,00% das vezes, eu só lembrei dos outros e da necessidade de ser gentil quando fui eu a parte humilhada. Não me orgulho disso, mas esse sou eu.

Hoje, no entanto, um pequeno milagre aconteceu. Encontrei esse vídeo, com um discurso oferecido por George Saunders, aos formandos da Universidade de Syracuse, no estado de Nova Iorque, em 2013, no qual ele fala sobre como a gente podia ser mais gentil, sobre como a cultura do sucesso consegue nos transformar em seres egoístas, incapazes de olhar pra outra coisa que não o próprio umbigo.

Aqui, coloco um vídeo com um dos trechos mais tocantes do discurso, onde ele conta a história de Ellen, uma amiga de infância por quem ele nutria um grande carinho, mas por quem fez muito pouco quando teve a chance.


Caso você não entenda inglês, traduzi o discurso inteiro abaixo. Para quem compreende o idioma, recomendo o discurso completo da mesma forma.

Quem sabe, ele ative em você uma fagulha de generosidade e doçura que pode acabar tornando o seu dia, e de mais alguém, um pouco melhor.

* * *

Um conselho aos graduados

Através das eras, uma forma tradicional evoluiu nesse tipo de discurso, que é: algum velhote, seus melhores anos atrás dele, quem, pelo curso da vida, cometeu uma série de erros terríveis (esse seria eu), dá um conselho de coração a um grupo de jovens brilhantes, enérgicos, com todos os melhores anos a frente deles (esses seriam vocês).

E eu pretendo respeitar essa tradição.

Agora, uma coisa útil que você pode fazer com uma pessoa velha é, além de emprestar dinheiro a eles, ou pedi-los para fazer umas das suas danças antigas de forma que você possa assistir enquanto ri, é perguntar: “Olhando pra trás, do que você se arrepende?” E eles vão dizer. Algumas vezes, como você sabe, eles vão contar mesmo que você não tenha perguntado. Algumas vezes, mesmo quando você especificamente pedir para eles não contarem, eles vão contar.

Então: do que eu me arrependo? Ficar pobre de tempos em tempos? Não exatamente. Trabalhar em empregos horríveis, como “separador de juntas em um abatedouro”? (Nem pergunte no que isso implica) Não. Eu não me arrependo disso. Nadar pelado num rio em Sumatra, um pouco chapado e vendo como cerca de 300 macacos em um cano cagavam dentro do rio, rio esse no qual eu estava nadando com a boca aberta e nu? E ficar mortalmente doente depois, estado que se manteve pelos sete meses seguintes? Nem tanto. Eu me arrependo da ocasional humilhação, como uma vez que, jogando hockey, em frente a um grande público, incluindo essa garota de quem eu realmente gostava, quando eu de alguma forma, consegui emitir esse grito esquisito, fazendo um gol contra e arremessando o taco direto na plateia, quase atingindo essa garota? Não. Eu não me arrependo disso.

Mas aqui tem algo do que me arrependo:

Na sétima série, essa menina nova se junta à nossa classe. Em nome da confidencialidade, seu nome de chamada vai ser “Ellen”. Ellen era pequena, tímida. Ela usava esses óculos estilo olho de gato, azuis, que na época apenas senhoras mais velhas usavam. Quando nervosa, o que era frequente, ela tinha o hábito de pegar uma mecha de cabelo e colocar na boca para mastigar.

Então, ela veio até a nossa escola e vizinhança e foi bastante ignorada, ocasionalmente provocada (“Seu cabelo é gostoso?” – esse tipo de coisa). Eu podia ver que isso a machucava. Eu ainda me lembro do jeito que ela ficava depois desses insultos: olhos baixos, um pouco chateada, como se tivesse acabado de ser lembrada de seu lugar; e ela estava tentando, tanto quanto possível, desaparecer. Depois de um certo tempo, ela tinha se afastado, com o cabelo ainda em sua boca. Em casa, eu imaginei que depois da escola, sua mãe dizia, você sabe: “Como foi o seu dia, querida?” e ela respondia: “Ah, bom.” E a sua mãe dizia: “Fazendo amigos?” e ela prosseguia, “Claro, muitos”.

Algumas vezes, eu a via andando sozinha em seu jardim, como se tivesse medo de deixá-lo.

E então – eles se mudaram. Foi isso. Sem tragédia, nenhum grande trote final.

Um dia ela estava lá, no outro não estava.

Fim da história.

Agora, por que eu me arrependo disso? Por que, quarenta e dois anos depois, eu continuo pensando nisso? Em comparação às outras crianças, eu era, na verdade, bastante legal com ela. Eu nunca disse uma ofensa a ela. De fato, eu até a defendia (levemente) de vez em quando.

Mas esse sentimento continua. E isso me aborrece.

Então aqui está algo que eu sei ser verdade, apesar de um pouco brega, e eu não sei bem o que fazer com isso:

O que eu mais me arrependo na vida são falhas de bondade.

Aqueles momentos quando um outro ser humano estava lá, em frente a mim, sofrendo, e eu respondi… sensivelmente… reservadamente… levemente…

Ou, olhando pra isso pela outra ponta do telescópio: quem, na sua vida, você se lembra mais afetuosamente, com o mais inegável e cálido sentimento?

Aqueles que foram os mais bondosos com você, aposto.

É um pouco fácil de dizer, talvez, e certamente difícil de implementar, mas eu diria, como um objetivo de vida, que você não poderia fazer nada menos do que tentar ser mais bondoso.

Agora, a pergunta de um milhão de dólares: qual o nosso problema? Por que não somos mais bondosos?

Aqui vai o que eu penso:

Cada um de nós nasce com uma série de confusões embutidas que são de alguma forma Darwinianas: (1) nós somos o centro do universo (isto é, a nossa história pessoal é a principal e mais interessante história, a única história, na realidade); (2) nós somos separados do universo (há NÓS e então, lá longe, todo o outro lixo – cachorros e balanços, e o Estado do Nebraska e nuvens baixas e, você sabe, outras pessoas), e (3) nós somos permanentes (a morte é real, OK, claro – pra você, mas não pra mim).

Agora, nós não acreditamos de verdade nessas coisas – intelectualmente a gente sabe – mas nós acreditamos nelas visceralmente, e vivemos por elas, e elas fazem com que nós priorizemos nossas próprias necessidades sobre as dos outros, mesmo quando o que realmente queremos, nos nossos corações, é ser menos egoístas, mais conscientes do que está acontecendo no momento presente, mais abertos e mais amáveis.

Então, a segunda pergunta de um milhão de dólares: como nós fazemos isso? Como nos tornamos mais amáveis, mais abertos, menos egoístas, mais presentes, menos delirantes, etc. etc.?

Sim, boa pergunta.

Infelizmente, eu só tenho mais três minutos.

Então, deixem-me dizer isso. Há jeitos de fazer. Você já sabe disso por que, na sua vida, houveram períodos de alta e baixa bondade, e você sabe o que o aproximou de um e afastou do outro. Educação é bom; aprofundar-se em um trabalho de arte: bom; rezar é bom; meditação é bom; uma conversa franca com um amigo querido; engajar-nos em algum tipo de tradição espiritual – reconhecendo que houve incontáveis pessoas realmente espertas antes de nós que se perguntaram as mesmas questões e deixaram respostas para nós.

Porque a bondade, por acaso, é difícil – ela começa com arco-íris e filhotinhos de cachorro, e se expande para incluir… bem, tudo.

Uma coisa a nosso favor: algumas dessas coisas de “se tornar mais bondoso” acontecem naturalmente, com a idade. Deve ser uma simples consequência do atrito: enquanto vamos envelhecendo, percebemos o quão inútil é ser egoísta – quão ilógico, na verdade. Passamos a amar outras pessoas e, de certa forma, nos contradizemos na nossa própria centralidade. Nossas bundas são chutadas pela vida real, e as pessoas vem em nossa defesa, e nos ajudam, e nós aprendemos que não estamos separados, e não queremos estar. Vemos pessoas próximas e queridas nos deixando e gradualmente nos convencemos que nós também iremos (algum dia muito distante de agora). A maioria das pessoas, quando envelhecem, tornam-se menos egoístas e mais amáveis. Eu acho que isso é verdade. O grande poeta de Syracuse, Hayden Carruth, disse, em um poema escrito perto do final de sua vida, que ele era “predominantemente amor, agora.”

E então, uma profecia, e meu desejo de coração para você: que enquanto você envelhecer, seu ego diminua e seu amor cresça. Que VOCÊ vá gradualmente sendo substituído por AMOR. Se você tem filhos, isso vai ser um grande momento em seu processo de auto-diminuição. Você realmente não vai se importar com o que acontece com VOCÊ, contanto que isso os beneficie. Essa é a razão pela qual seus pais estão tão orgulhosos hoje. Um de seus sonhos mais ternos se tornou realidade: você conseguiu algo difícil e tangível que fez você crescer como pessoa e vai tornar sua vida melhor, daqui até a eternidade.

Parabéns, aliás.

Quando jovens, ficamos ansiosos – compreensível – por descobrir se nós temos o que é preciso. Será que vamos ter sucesso? Podemos construir uma vida viável para nós mesmos? Mas você – em particular vocês, dessa geração – devem ter notado uma certa qualidade cíclica da ambição. Você vai bem na escola, com a esperança de conseguir uma boa faculdade, então, se você for bem na faculdade, espera conseguir um bom emprego, de forma que se for bem no bom emprego você possa…

E está tudo certo com isso! Se vamos nos tornar mais gentis, esse processo tem de incluir nos levar a sério – como executores, como realizadores, como sonhadores. Nós temos de fazer isso, ser o nosso melhor.

Ainda, realização não é confiável. “Ter sucesso”, seja lá o que isso signifique, é difícil, e a necessidade de fazê-lo constantemente se renova (sucesso é como uma montanha que continua crescendo à sua frente enquanto você a escala), e há o risco de que “ter sucesso” tome toda a sua vida, enquanto as grandes questões seguem não respondidas.

Então, rápido, fim do conselho de discurso: Já que, de acordo comigo, sua vida será um processo gradual de tornar-se mais bondoso e amoroso: apresse-se. Corra. Comece agora. Há uma confusão em cada um de nós, uma doença, sério: egoísmo. Mas há também uma cura. Então, seja bom e proativo e mesmo de certa forma desesperadamente paciente em sua própria busca – procure os remédios anti-egoísmo mais eficazes, energicamente, pelo resto da sua vida.

Faça todo o resto, as coisas ambiciosas – viajar, ficar rico, famoso, inove, lidere, apaixone-se, faça e perca fortunas, nade em rios selvagens na floresta (depois de ter checado se não tem merda de macaco) – mas enquanto faz tudo isso, o quanto puder, erre na direção da bondade. Faça coisas que o inclinem pelas grandes questões, e evite as coisas que possam reduzi-lo e torná-lo trivial. Essa parte luminosa de você que existe além da personalidade – sua alma, se assim preferir – é tão brilhante quanto qualquer outra que já existiu. Tão brilhante quanto Shakespeare, brilhante como Gandhi, brilhante como a Madre Teresa. Limpe tudo que o mantém separado desse lugar secreto e luminoso. Acredite, ele existe, conheça-o, nutra-o, compartilhe seus frutos incansavelmente.

E algum dia, daqui há 80 anos, quando você tiver 100 e eu 134, e ambos formos tão gentis e amáveis que seremos quase insuportáveis, me conte como foi, me deixe saber como sua vida passou. Eu espero que você diga: foi tão maravilhoso.

Parabéns, Classe de 2013.

Eu desejo a vocês grande felicidade, toda sorte do mundo e um belo verão.

~ Luciano Ribeiro, para o Papo de Homem.

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