Estranho mundo

Comer um lanche no pão brasileiro enquanto pega uma fila indígena para se divertir na montanha-francesa soa esquisito? Isso acontece porque há muitos mal-entendidos envolvendo pessoas, objetos, lugares e histórias que não são bem assim como julgamos conhecer…

page 01

FILA INDIANA NÃO SURGIU NA ÍNDIA: O nome correto deveria ser fila indígena, já que a característica de andar enfileirado em grupo foi observada nos índios norte-americanos. De acordo com relatos históricos, os guerreiros indígenas se deslocavam no meio da mata pisando um na pegada do outro para não deixar rastros das investidas em grupo.

A locomoção enfileirada foi usada como estratégia pelo Exército norte-americano na Guerra da Independência (1775-1783) contra os ingleses.

MONTANHA-RUSSA É FRANCESA: O primeiro registro de carrinhos enfileirados com rodas presas e trilhos em alta velocidade para diversão é de 1812, em Paris. O brinquedo tinha o nome de As Montanhas Russas de Belleville. É que a atração foi inspirada numa brincadeira russa do século 17, que porém, era mais parecida com um tobogã em uma encosta de gelo.

Em russo, o nome do brinquedo é montanha-americana (amerikansklye gorki), em referência ao país que aperfeiçoou o brinquedo a partir do século 19.

PÃO FRANCÊS NÃO EXISTE NA FRANÇA: Nem adianta procurar um pain français em Paris. Pão francês é produto 100% brasileiro. O “francês” do nome provavelmente vem do fato de ele ter sido criado com base em descrições de brasucas ricos para seus padeiros, a fim de reproduzir o pão que comiam na Paris do século 19, uma versão reduzida da baguete.

NÚMEROS ARÁBICOS SÃO INDIANOS: Os numerais que usamos cotidianamente (1, 2, 3 etc.) têm origem na Índia, por volta do ano 500. Lá pelo século 9, eles se espalharam entre árabes e persas. Ao chegar na Europa, no início do século 12, o sistema de numeração substituiu os números romanos (inúteis para cálculos) e foi erroneamente batizado de arábico.

Em árabe, os números arábicos são chamados de números indianos.

PORQUINHO-DA-ÍNDIA NÃO É PORQUINHO NEM DA ÍNDIA: A espécie Cavia Porcellus não é suína e muito menos indiana. A confusão geográfica se dá porque o bicho é originário das Índias Ocidentais – nome que os europeus usavam para se referir ao Caribe até o século 17. Acredita-se que o apelido de porco dado ao roedor tenha a ver com o barulho emitido pelo animal quando está com fome.

page 02

MAPA DO ERROS – Localidades, plantas e animais que traem o sendo comum:

CAMALEÃO NÃO MUDA DE COR PARA SE CAMUFLAR: As trocas de cores refletem variações do estado emocional do bicho, que, às vezes, coincidem com as cores do ambiente. As mudanças rolam quando o camaleão fica com medo, derrota um rival, encontra um indivíduo do sexo oposto, passa por mudanças de luminosidade e de temperatura etc.

BAMBU NÃO É ÁRVORE: O alimento do panda, apesar de compridão (chega a mais de 30 metros de comprimento), é da família das gramíneas. Ou seja, está mais para capim do que para árvore. A sua velocidade de crescimento (até 1 metro por dia) é incomparável com a de qualquer outra planta.

BANANA NÃO DÁ EM ÁRVORE: É que a bananeira, a rigor, não é uma árvore, mas sim uma erva gigante. A diferença é que ervas, por definição, têm caule macio e não lenhoso que não apresenta crescimento após a planta florescer e gerar sementes.

MAIOR PIRÂMIDE NÃO É EGÍPCIA: As egípcias são até mais altas, mas em área construída, ninguém supera as mexicanas. A maior de todas, Quetzalcoátl, a cerca de 100 km da Cidade do México, ocupa uma área de 180 mil m² enquanto a de Quéops, no Egito, tem área construída de 52 mil m².

ILHAS CANÁRIAS NÃO TÊM A VER COM PÁSSAROS: A maior ilha do arquipélago espanhol, lotada de cachorros selvagens e domesticados, era a Ilha dos Cães (em latim, Insula Canaria), que acabou batizando o conjunto. O canário passarinho (Serinus Canaria) recebeu o nome por ser originário das ilhas.

page 03

A CIÊNCIA NÃO SE ENGANA – Qual é a cor do Universo? E da água? E o formato de um pingo de chuva? As respostas são surpreendentes:

UNIVERSO NÃO É PRETO: Pasme, o Universo é castanho-claro, tipo bege. A conclusão foi feita por cientistas norte-americanos da Universidade Johns Hopkins ao analisar a luz de 200 mil galáxias. Uma das explicações sobre o fato de o céu ser preto à noite é de que a luz de estrelas muito distantes ainda estaria para chegar até nós.

PINGO DE CHUVA É REDONDO: O formato de gota com uma das pontas arredondada e outra bem aguda não existe na natureza. Os pingos são, na real, esféricos. Tanto é verdade que fabricantes de bolinhas de chumbo jogam o metal derretido de uma grande altura, através de uma peneira, para cair em forma de esfera num líquido para esfriar.

ÁGUA TEM COR: Aprendemos na escola que a água é incolor, mas não é bem assim. Na verdade, ela é azul. Um azul extremamente claro, mas azul. É possível observar isso num buraco fundo na neve ou enchendo uma piscina branca bem profunda – lá embaixo, dá pra ver o azul. Isso se dá pelas partículas minerais que compõem a água e refletem a luz.

page 04

CULTURA INÚTIL – Arte, religião e mitologia também estão recheadas de enganos difundidos mundialmente:

FRANKENSTEIN NÃO É O NOME DO MONSTRO: Tanto no livro Frankenstein, ou o Moderno Prometeu (1918), de Mary Shelley, quanto no filme Frankenstein (1931), esse é o sobrenome do cientista, Victor, que cria o monstro. Embora não receba nome próprio nem no romance nem no longa-metragem, a criatura refere-se a si mesma como Adão num diálogo com Victor.

“ELEMENTAR, MEU CARO WATSON” NÃO EXISTE NOS LIVROS DE SHERLOCK HOLMES: Em nenhuma das 60 histórias de Arthur Conan Doyle o detetive diz o famoso bordão. Por várias vezes, ele pronuncia “elementar” e também “meu caro Watson”, mas jamais combinou as expressões em uma mesma frase, como faz parecer o imaginário popular. A expressão consagrada surgiu em filmes e em seriados de rádio com o personagem.

RELIGIÃO VODU NÃO ESPETA BONECAS: No vodu, que nasceu na África e migrou para o Caribe, predominam os rituais de cura. O que mais se parece com um “boneco de vodu” é o bocheo, homenzinho de madeira com orifícios para inserir gravetos que canalizam a energia curativa. A manipulação de bonecas para afetar a vida de pessoas surgiu na bruxaria europeia medieval.

BIG BEN NÃO É O NOME DO RELÓGIO INGLÊS: Nem a torre nem o relógio que compõem um dos mais conhecidos cartões-postais da Inglaterra são chamados Big Ben. O nome é atribuído, na verdade, ao sino do edifício do Parlamento. Instalado em 1859, a peça de 13 toneladas foi batizada em homenagem ao comissão de obras públicas, Sir Benjamin Hall.

SAPATOS DA CINDERELA ERAM DE PELE DE ESQUILO: Ao ouvir o conto medieval referente à Cinderela, Charles Perrault, autor da versão mais conhecida da história, confundiu palavras. Em francês, vair (pele de esquilo) tem o mesmo som de verre (vidro). Nenhuma versão anterior à de Perrault, cobrindo várias culturas e épocas, cita sapatos de vidro.

~ Revista Mundo Estranho, edição 144, outubro de 2013.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s