Pálido ponto azul

Em 1990, a 6 bilhões de quilômetros de distância, a sonda Voyager I se virou novamente para a Terra para uma última foto antes de sair do Sistema Solar, entrando para a história como o objeto de fabricação humana mais distante no espaço, recorde que mantem até hoje, enquanto nos ensina a incomensurabilidade do universo.

[vimeo 51960515]
Na época Carl Sagan trabalhava no projeto dessa sonda, lançada em 1977 e que já havia cumprido sua missão inicial em 1980 ao passar por Saturno. Em 1981 Sagan sugeriu que uma foto da Terra em distância recorde, batizada Pálido Ponto Azul, fosse tirada, mas o medo de que a exposição direta da luz do Sol danificasse o equipamento fotográfico, inutilizando a sonda para uma missão mais prolongada, atrasaram a foto por 9 anos. Esse meio tempo foi gasto entre discussões e cálculos. Dos 640 mil pixels da foto, a Terra ocupa apenas 0,12 pixel.

A Terra, a 149,597,871 de quilômetros de distancia é o pequeno ponto branco no raio marrom da foto sobreposta a esquerda, na foto da direita, Vênus.
A Terra, a 149,597,871 de quilômetros de distância é o pequeno ponto branco no raio marrom da foto sobreposta a esquerda, na foto da direita, Vênus.
Consegue enxergá-la?
Consegue enxergá-la?

A possibilidade de vida extraterrestre encontrar a sonda e a mensagem que carrega é minima. Na direção em que a sonda segue, levará 40.000 anos para chegar a 1,6 anos-luz de Gliese 445. Nas palavras de Sagan: “A Espaçonave será encontrada e o disco tocado somente se existirem civilizações avançadas explorando o espaço, mas o lançamento desta garrafa no oceano cósmico diz algo muito esperançoso sobre a vida deste planeta.”

Tanto a animação acima quanto o áudio abaixo citam apenas a introdução do discurso que Carl Sagan deu na Universidade de Cornell em 1994:

A espaçonave estava bem longe de casa. Eu pensei que seria uma boa ideia, logo depois de Saturno, fazer ela dar uma última olhada em direção de casa. De Saturno, a Terra pareceria muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe. Nosso planeta seria apenas um ponto de luz. Um pixel solitário. Dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria. Planetas vizinhos. Sóis distantes. Mas justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado, valeria a pena ter tal fotografia. Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da antiguidade clássica que a Terra era um mero ponto de luz em um vasto cosmos circundante. Mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava a nossa primeira chance. E talvez a nossa última nas próximas décadas.

Então aqui está, um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas, e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do Sol na espaçonave, a Terra parece estar apoiada em um raio de Sol. Como se houvesse alguma importãncia especial para esse pequeno mundo, mas é apenas um acidente de geometria e óptica.

Não há nenhum sinal de humanos nessa foto. Nem nossas modificações da superfície da Terra. Nem nossas máquinas. Nem nós mesmos.

Desse ponto de vista, nossa obssessão com nacionalismo nãoa aparece em evidência. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes. Uma fina película de vida, num obscuro e solitário torrão de rocha e metal.

Considere novamente este ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todo ser humano que já existiu, todos de quem você já ouviu falar, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas. Cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada criança esperançosa, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada superstar, cada líder supremo, cada santo e pecador na história na nossa espécie, viveu ali. Em um grão de poeira suspenso em um raio de Sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica.

Pense nas infindáveis crueldades infligidas pelos habitantes de um canto deste pixel aos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto. O quão frequentemente seus mal entendidos, o quão sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua glória e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes. Nossa imaginária auto importância. A ilusão de que temos uma posição privilegiada no universo… É desafiada por este pálido ponto de luz. Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há nenhum indício que a ajuda possa vir de algum lugar para nos salvar de nós mesmos.

A Terra é o único mundo conhecido até hoje que alberga a vida. Não há outro, pelo menos no próximo futuro, onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, pode. Assentar-se, ainda não. Gostando ou não, por enquanto, a Terra é onde temos de ficar.

Tem-se falado da astronomia como uma experiência criadora de firmeza e humildade. Não há, talvez, melhor demonstração das tolas e vãs soberbas humanas do que esta distante imagem do nosso miúdo mundo. Para mim, acentua a nossa responsabilidade para nos portar mais amavelmente uns para com os outros, e para protegermos e acarinharmos o pálido ponto azul, o único lar que nós conhecemos. [transcrição da versão de áudio realizada por Guilherme Briggs para o NerdCast #323]

Aproveito a incrível oportunidade para incluir um vídeo sobre o assunto de que gosto mundo, numa pergunta respondida por Neil DeGrasse Tyson para a Revista Time:


↬ Indicação e parte do texto adaptado de Bryyy para o Off Death.

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