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Nós somos o asteroide

Segundo balanço da ONG Global Witness divulgado em abril sobre os ativistas que perderam a vida no ano passado, enfrentando toda sorte de ecocidas, 116 vítimas foram relacionadas; destas, 29 morreram aqui na “terra onde os bosques já tiveram mais vida e nossa vida mais amoras”.

Se levarmos em conta que o desmatamento da Amazônia cresceu 195%, a epidemia de dengue aumentou 157% só em São Paulo e as reservas hídricas do Sudeste continuam à mercê de São Pedro, o primeiro lugar na lista da Global Witness não podia ter vindo à tona em hora mais imprópria.

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Para Elizabeth Kolbert, da revista New Yorker, vencedora do prêmio Pulitzer de jornalismo, o alerta virou ameaça: a Terra corre o risco de “acabar” pela sexta vez, conforme prega o seu premiado livro The Sixth Extinction, lançado há pouco mais de um ano pela Henry Holt & Company.

Não é para já; o processo é lento. A quinta e última extinção em massa de nossa fauna e flora ocorreu há uns 66 milhões de anos. Mas sinais patentes da degradação do planeta estão em toda parte e seu impacto na natureza (elevação da temperatura, seca, acidificação dos oceanos, nevascas e inundações diluvianas, etc.) há muito dispensa o benefício da dúvida. Mantido o atual ritmo de destruição, de 20% a 50% das espécies poderão desaparecer até o final deste século.

Kolbert aventurou-se por um diário de viagem enriquecido com entrevistas de pesquisadores e cientistas, a que deu o apropriado subtítulo de An Unnatural History. Sua “história desnatural” começa com o sumiço do sapo dourado no vale central do Panamá e dos morcegos da costa leste dos Estados Unidos, e segue a investigar e registrar os efeitos mais nefastos do entrechoque entre a civilização e a biosfera. Ela leva os leitores aos lugares onde a extinção parece mais visível: à Grande Barreira de Coral australiana (o ecossistema mais impactado pela ação humana), à Amazônia (e seu desmatamento incontrolável), aos Andes (e as espécies que de lá somem ou para lá migram, também por causa de alterações térmicas provocadas pelo efeito estufa e fatores correlatos), à poluída baía de Nápoles, a grutas de Vermont onde um fungo de origem desconhecida aniquila morcegos aos magotes.

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Antes do século 18 a ideia de extinção era algo inconcebível. Ninguém, nem o mais cético dos cientistas, admitia que os seres humanos pudessem ser responsáveis pela destruição do planeta. Quando os primeiros ossos de mastodontes foram estudados, em 1739, os elefantes e os hipopótamos levaram a fama; até que em 1796 o naturalista francês Georges Cuvier, após coletar e estudar o máximo de fósseis ao alcance de seu microscópio, esclareceu tudo: os ossos pertenciam a um descomunal elefante de outra era, a uma espécie desaparecida.

Com o passar do tempo, mais as contribuições de Darwin e Charles Lyell, o conceito de extinção ganhou status científico. Em meados do século 19 já se reconhecia que as causas de mudanças bruscas no clima eram decorrência de fenômenos ocorridos ao longo de milênios.

A primeira extinção foi no Ordoviciano, há uns 450 milhões de anos, quando os seres vivos da Terra praticamente não saíam da água. A mais devastadora foi a terceira, no Permiano, há 250 milhões de anos: praticamente 90% das espécies desapareceram, dizimadas pelo dióxido de carbono despejado na atmosfera por uma erupção vulcânica de proporções apocalípticas.

A quinta, no Cretáceo, foi aquela causada pela colisão de um asteroide de 10 quilômetros de largura com a Terra, afetando dramaticamente a composição da biodiversidade do planeta. Ecossistemas marinhos foram totalmente destruídos, assim como 75% das plantas e espécies animais. Foi nessa que os dinossauros dançaram.

Se bem que nunca se sabe o que possa vir do espaço, nosso problema nesta era que uns e outros batizaram, et pour cause, Antropoceno, Homogenoceno e Catastrofoica é o homem. Segundo o climatologista James Hansen, os estragos causados pela poluição diária dos humanos na atmosfera e nos oceanos equivale à explosão de 400 mil bombas de Hiroshima. “Nós somos o asteroide”, assumem aqueles que entendem como funciona nossa frágil ecologia.

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Não devastamos o planeta porque nossa espécie é naturalmente má ou gananciosa, mas porque “os humanos são humanos”, escreve Kolbert, “e muitas das qualidades que nos fizeram bem sucedidos – somos espertos, criativos, inquietos, cooperativos – podem nos tornar nocivos ao mundo natural”. Nosso ritmo veloz de avanço e progresso não bate com o compasso mais lento da evolução natural. Há um tremendo desajuste entre o que o homem (agora mais do que sapiens, techno sapiens) pode fazer e o que natureza pode suportar. Ou ele se ajusta ou nem chega à sétima extinção.

↬ Sérgio Augusto para o Estadão.

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