15 práticas para 2015

Por mais que a mudança de ano seja uma construção onírica, vamos admitir: a maioria das pessoas fica mais aberta, tanto é que em vez de “Tenha um bom dia!” ou “Boa semana para você!”, expandimos nossa percepção: “Que você tenha um ótimo ano!”

Para aproveitar esse momento, convidamos várias pessoas para contar qual prática têm testado e que poderiam sugerir de coração para reorientar outras vidas. A lista abaixo é um compilado do que elas enviaram.

Esta não é uma lista de curiosidade, apenas para ler e compartilhar. Se você, por exemplo, realmente parar todo dia e não mais compartilhar inutilidades (duas das 15 práticas), é certo: sua vida vai ficar mais leve e sua presença mais benéfica às pessoas ao redor.

Vamos lá?

Para ilustrar, as novas tirinhas de André Dahmer na série "Para viver 120 anos"
Para ilustrar, as novas tirinhas de André Dahmer na série “Para viver 120 anos”

1) Escutar um a um

“O maior presente que podemos dar ao outro é nossa atenção” ~ Laurence Freeman

Começar a fazer uma coisa tão simples quanto realmente ouvir as pessoas, com interesse, sem pressa e julgamento, é uma coisa que pode, aos poucos, impactar toda a forma como vivemos, conduzimos as relações e vemos o mundo.

É simples. Todos tem o que falar. Quando sentimos que o outro tem algo a dizer, que tem alguma dificuldade, nós apenas ouvimos — paramos para isso, chamamos para um café, para um Skype, oferecemos nossa presença. Não fazemos como se fosse uma coisa que já fazemos (para um barzinho etc.), chamamos para fazer isso, explicitamente, especialmente, fazemos uma coisa nova.

Para isso, não precisamos ser mestres e sempre saber o que fazer. Ouvimos e então falamos com o coração: “Olha, eu não sei o que é o melhor para se fazer, mas eu queria muito ajudar, de verdade, queria muito aprender. Podemos descobrir juntos como destravar isso…”

2) Parar cinco minutos a cada dia

“Numa era de velocidade, nada é mais revigorante quanto ir devagar. Numa era de distração, nada é mais luxuoso quanto prestar atenção. E numa era de constante movimento nada é mais urgente quanto se sentar quieto.” ~ Pico Iyer

Apenas sente. Exerça a liberdade radical de tomar nas mãos 5 dos 1440 minutos do seu dia. Faça a experiência, sente-se, pare, relaxe, respire. E se achar difícil, desconfie: de quanta liberdade você realmente desfruta?

3) Não compartilhar bobagem e conteúdos danosos

Vale para o Facebook, mas também para a vida: lembre-se que o tempo e a atenção, nossas e dos outros, são as coisas mais valiosas. Ao compartilhar algo, pense: isso poderá causar maior benefício e abertura ou maior dano e fechamento? Poderá ajudar a quem e de que forma? Com qual motivação estou fazendo isso — raiva, orgulho, inveja… ou compaixão, empatia, generosidade, cuidado?

Nós temos responsabilidade sobre o mundo e sobre as pessoas. Melhor lembrar o quanto antes que todos desejamos estar bem e nos apoiarmos nisso, enfim, mais e mais. Melhor parar de prejudicar e distrair os outros e a nós mesmos o quanto antes e de todos os jeitos.

4) Entender o dinheiro como energia

Assim como o tempo, os projetos para os quais direcionamos nosso dinheiro são (ou deveriam ser) os projetos em que realmente acreditamos. Nosso extrato diz muito sobre nossas crenças. Não adianta postar no Facebook sobre como nossos políticos erram ao direcionar a verba que lhes é confiada, mas não conseguir direcionar minimamente nosso próprio recurso financeiro.

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5) Parar de ignorar a morte

A clareza de que a morte é certa e inesperada reorienta nossas prioridades e traz à tona o que realmente importa. Além de lembrar diariamente de que vai morrer, você pode começar a preparar tanto a logística do processo quanto sua mente, pode começar já a se despedir das pessoas queridas e não resistir tanto à realidade da impermanência — do corpo, das ideias, do jeito como passamos os fins de semana, de cada momento que parece estável…

Marcar o fim, ritualizar as passagens nos deixa mais confortáveis nesse mundo de despedidas. Pouco a pouco, vamos incorporar o hábito de falar abertamente sobre a morte, para que ela se torne cada vez menos um tabu.

6) Quebrar a diferença entre estranhos e conhecidos

Num grupo de estudos realizado em São Paulo, muita gente se surpreendeu com o quanto cada um sem querer acaba se estreitando em um grupinho de amizades. Ao se dispor a falar com estranhos sobre questões íntimas (relacionamento, trabalho, dinheiro, morte, tempo…), descobrimos que quase não fazemos isso, não colocamos nossas visões e ações na mesa para serem contestadas, entendidas, revisitadas, muito menos entre desconhecidos.

Olhe ao redor: é cada vez mais difícil para adultos abrirem novas amizades. No fundo, mais do que amigos, queremos ser parceiros de absolutamente cada e toda pessoa, então já podemos começar mesmo antes do primeiro “Oi”, ao não mais pensar em termos de estranhos e familiares.

7) Fazer um caderno de seres

Escreva o nome de todas as pessoas que você já encontrou na vida, adicione as recentes sempre e leia com alguma frequência. Isso nos ajuda a acompanhar, se alegrar e ajudar mais vidas, além de evidenciar quais relações precisamos pacificar, quais pessoas estamos excluindo ou olhando de modo inferior.

Assim que escrevemos um nome inteiro a cada linha, começa a parecer absurda nossa tendência a ver uma pessoa como “ex-namorada”, outra pessoa como “vizinho com quem nunca converso”, outra pessoa como “cliente de tal empresa”… E assim fica mais fácil ampliar a relação que temos com ela, unilateralmente, sem precisar necessariamente entrar em contato.

8) Parar de culpar pessoas e situações

Podemos nos debater e encontrar mil justificativas, mas a realidade é a seguinte: nosso sofrimento e nossa felicidade não surgem de algum evento externo, mas de uma presença interna. Tanto é que depois de alguns anos somos capazes de sorrir ao lembrar de uma situação que na época parecia completamente densa e intransponível — mesmo quando nada mudou, como no caso de uma relação paralela (“traição”) que deu origem a um outro casamento duradouro.

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9) Cultivar compaixão consigo mesmo

A medida de compaixão que temos com os outros é exatamente a mesma medida que conseguimos ter com nós mesmos. Quando não temos compaixão conosco, não temos com mais ninguém. E se agimos como se tivéssemos, é provável que, em alguma medida, seja uma farsa, algo que demande grande energia e esforço, feito por entendermos que agir desse modo será bem percebido.

Muitas vezes nós somos nossos piores inimigos, principalmente quando buscamos algum tipo de autoestima (algo bem diferente de autocompaixão). Somos duros, impacientes, não aceitamos o ponto em que estamos e não confiamos em nosso potencial de transformação.

10) Agradecer e apreciar

Se você não tem a quem agradecer, desconfie: você não está olhando direito ou você está isolado.

É muito saudável agradecer (às vezes explicitamente) pelas coisas que geralmente tomamos como certas. Isso vale para o jantar preparado pelo marido ou pela esposa, para o garçom que nos serve, para alguém que me ajuda quando deixo algo cair, para o lixeiro, para o carteiro… enfim, oferecer um “Obrigado” de coração pelas pequenas gentilezas burocráticas que acontecem vez ou outra.

Abrir o olho da gratidão naturalmente desvela o universo de bondade no qual estamos imersos. E a bondade nos leva a apreciar a riqueza da nossa condição presente, seja ela qual for. Depois é mais fácil ver qualidades, elogiar, agir para que floresçam, desejar a felicidade de mais e mais pessoas (treinando na arte rara do amor genuíno), e criar relações a partir dessas qualidades amplas uns dos outros.

11) Boicotar iniciativas danosas

Pesquise e pare de apoiar pelo menos uma empresa ou marca que piora nossa vida ou age contra suas visões de bem-estar coletivo. Se você não boicota nenhuma organização, é fácil começar: pare, por exemplo, de tomar refrigerantes e instale um adblock no seu navegador de internet. Se você já boicota e quiser uma inspiração adicional, veja essa lista de corporações e a lista de boicotes do Eduardo Pinheiro.

12) Parar de falar mal dos outros

Por mais “espiritualizados” que alguns se considerem, ainda não superamos esse mal hábito coletivo de fofocar e falar mal, congelando as pessoas e nos afastando uns dos outros. Melhor ficar quieto ou experimentar um outro tipo de fofoca: “O outro está passando por tal obstáculo, o que podemos fazer?”

Além disso, podemos fazer o voto de evitar piadas, discursos e comportamentos que reforcem preconceitos contra grupos dos quais não fazemos parte. Podemos reconhecer o racismo, a homofobia ou o machismo e a cultura do estupro, por exemplo, e apoiar iniciativas focadas em reduzir o sofrimento.

13) Substituir o “Tudo bem?”

Ao retomar contato com alguma pessoa, veja se um “Como vai?” funciona sem que você se abra primeiro, não apenas listando fatos, mas falando de seu mundo interno sem pés atrás. Experimente brincar com a pergunta clássica, trocando-a por algo como “Você está sonhando e avançando em que direção?”, “O que você realmente tem feito?”, “Qual foi o momento mais importante dessa semana?”, “Aflito por algo?” ou o que fizer mais sentido na hora.

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14) Não exigir

Exigir é talvez a ação que mais destrói uma relação. Exigir é um tipo de violência. Exigimos com o olhar, exigimos com atitudes indiretas, exigimos incessantemente até ao pensar nos outros. Quem somos nós para interromper uma pessoa no meio da rua e forçá-la em alguma direção? E o que muda quando essa pessoa vive conosco há 10 anos?

Guardem isso no coração: o outro é livre, o outro é criativo. Antes de ligar para a esposa (marido, filha, funcionário, amiga…), lembre-se que naquele exato momento a pessoa está seguindo com sua vida; antes do “oi”, depois do “tchau” e até durante a conversa, ela não é sua esposa. Melhor liberar o outro, dispensá-lo do trabalho de nos fazer feliz. E assim nos desobrigar de fazê-lo feliz, intensificando a alegria em ajudá-lo em seu florescimento, sem a sensação de cobrar ou pagar dívidas.

15) Ter um sonho claro para 2015

Diferente de fazer um planejamento, apenas permita-se sonhar o que você gostaria que acontecesse de realmente relevante e positivo para este ano. E então bote no papel, liste 5, 10, 15 itens, coisas que te causam alegria só de pensar.

Por relevante e positivo, podemos entender as coisas que são mais condizentes com nossa aspiração fundamental por felicidade genuína, ainda que sejam simples — entrar em tal curso, fazer tal formação, iniciar um encontro semanal para chá, conversa e silêncio, ir a três retiros, se empoderar das finanças e fazer as mudanças de trabalho, cidade ou casa…

Ao sonhar, consideramos que as circunstâncias podem mudar a qualquer momento e que sito não é um problema. A lista pode sempre ser refeita, como um GPS que nunca se cansa de encontrar a melhor rota. Para algum lugar nós vamos de qualquer jeito, então é melhor que tenhamos algum direcionamento.

~ Gustavo Gitti reuniu este texto colaborativo escrito também por Fábio Rodrigues, Eduardo Amuri, Leiliane Abreu, Daniel Gisé, Marcos Bauch, Isabella Ianelli, Guilherme Valadares, Tatiana Monnerat, Mel Oliver, Rafael Peron, Paulo Carvalho, Vítor Barreto, Alan Nakano, Mirian Hasegawa e Daniela Godoi, para O Lugar.

[Nota do Editor: Já se passou 1/3 de 2015, mas é daí? Das suas “resoluções de Ano Novo”, quantas conseguiu colocar em prática até este exato momento? Não seria este mais um estímulo para tentarmos ser alguém melhor?]

10 coisas que você deveria desejar nesse começo de ano

Muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender! O brinde-jingle-de-ano-novo é aquele bom e velho clichê no qual mal pensamos, desejamos automaticamente sem entender o que queremos de verdade.

Afinal mesmo com saúde e dinheiro, não ficamos em paz, então eu queria fazer algumas sugestões mais relevantes para sua virada ano:

1. Liberdade interna

Diferente de aumento de espaço físico, viajar para lugares paradisíacos, fazer o que tiver vontade, euforia no meio da estrada ou não receber ordens, a liberdade é um tipo de capacidade de deliberar com o mínimo de condicionamento restritivo.

Uma pessoa que só vive fazendo mochilão pode estar tão asfixiada quanto um funcionário workaholic de multinacional. Alguém que vive praticando o “bem” pode estar tão preso nesse script quanto o bad boy cheio de opinião.

Liberdade parece mais uma habilidade de atravessar aquela tentativa da nossa mente de solidificar a vida num frasquinho de certeza. No ano que começa trabalhe nisso.

2. Desejos mais conscientes

Se você apenas ajoelha e obedece tudo o que passa no campo dos seus desejos então você será refém do consumismo, da sua gula, do egocentrismo, da sua arrogância e até da necessidade compulsiva de ficar pregando a paz na Terra e perdendo os amigos com sua chatice.

Qualquer tipo de desejo, dos mais nobres aos mais imediatistas, se passarem invisíveis ao seu radar consciente levarão você inevitavelmente de objetos em objetos sem parada só para que você fique satisfeito.

O resultado será só mais insatisfação.

3. Capacidade de gerar felicidade

Estar cercado de mimos é até fácil, mas conseguir captar um sorriso genuíno de alguém parece ter um efeito reverberante muito mais poderoso. Essa cadeia de gentilezas e de olhar atento ao caminho do outro cria um ciclo de cafuné coletivo.

O meio ambiente agradece e quem mora na sua casa também.

4. Resiliência para os dias difíceis

O ano certamente trará chances para você se agarrar naquilo que acha que o fará feliz, mas esconde uma dose grande de sofrimento pelo apego. Eu desejo que você consiga perceber que está idolatrando algo mais do que deveria para resistir ao impulso de ficar aprisionado na sua própria alegria e por isso ficar incapaz de usufruir a vida com leveza.

Ao conseguir resistir ao impulso de se fechar numa ideia, lugar ou pessoa, os dias difíceis tendem a ser mais fáceis.

5. Capacidade de negociar com seus próprios desejos

Se eu desejar muito dinheiro no bolso, posso afirmar que nem toda fortuna existente do mundo conseguirá pagar o que seu desejo.

Espero que você não tenha tudo o que deseja e possa ficar bem com isso.

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6. Saber reconhecer os movimentos internos

Quero que você consiga ter um GPS interno para se guiar nas suas rotas pessoais, que consiga não se perder em si mesmo com atitudes impulsivas, reativas e que estejam desconectadas de seus valores internos.

Quero que você saiba mergulhar com mais facilidade para dentro antes de sair desembestado tomando grandes ou pequenas decisões que fecharão seu caminho.

7. Lidar com a incompletude da vida

Desejo que você lide com o fato de que sempre haverá uma dimensão de incompletude na vida. Você só se torna esse poço de inconformação e insatisfação por que ainda tem uma esperança de algum dia isso ser saciado.

Não, não haverá algum momento em que você terá chegado no topo da montanha, não há topo e nem montanha.

8. Parar de sonhar com realidades mágicas

O que é uma realidade mágica? É aquilo que causa angústia só de pensar, por que é muito grande, descolado de qualquer senso de realidade, que carece de qualquer planejamento e está tão fora de sua área de influência que chega a doer.

Espero que você consiga olhar ao redor e consiga reconhecer quanta beleza já existe na sua vida, mesmo essa porção fragmentada, manca, incompleta, estranha e contraditória.

9. Assumir que nada acontece se você não gerenciar o medo

Se você ainda insistir que só uma meta vai salvar sua alma e seu ano, então desejo que aprenda a conviver com o medo constante do fracasso, da perda, do desapontamento, da rejeição e do “quase”.

Se quer garantia absoluta e nenhum medo então você não entendeu nada sobre atingir metas. Aquilo que você acha que deseja mais que tudo só tem essa magnitude pois está fora de sua zona de conforto.

Seu próximo passo já está calculado e pré-aprovado? Espere chegar no final do ano que vem.

10. Parar de achar que as listas são autorrealizáveis

Essa lista não tem o poder de se realizar porque você achou ela incrível ou disse no fundo do seu coração “vou realizar”. Não.

Ela precisa de pequenas doses de treino diário. São posturas mentais, muito mais do que flexões ou abdominais, mas que para terem resultado seguem a mesma disciplina de academia. Só boa vontade não resolve nada.

As perguntas que você deve se fazer, de acordo com essa lista são: eu realmente vou me limitar a isso? O que eu realmente desejo? Eu posso facilitar a vida de alguém? Estou preso ao meu sofrimento? Estou conectado aos meus valores? O que se passa dentro de mim? O que não aceito nessa vida? Estou mirando para muito longe de mim? Posso lidar com esse medo?

~ Frederico Mattos para o Papo de Homem.

Já parou pra pensar no que vai te fazer sofrer em 2015?

No final do ano passado eu escrevi um texto, desses que a gente faz pensando em como andou a vida.

Foi um pequeno apanhado do que passava pela minha cabeça e como eu me sentia em relação aos planos e promessas que estava fazendo pra mim mesmo naquele momento.

Agora, um ano depois, vejo que o raciocínio ainda se aplica.

Como fiz o exercício de voltar a esse texto, venho humildemente sugerir que você também olhe de novo (basta trocar as datas onde for necessário) e pense em tudo o que você sofreu tentando ser feliz, atingir sonhos, metas e objetivos.

Enquanto a gente segue nesse modus operandi, eu também vou junto, com uma pequena esperança de que a gente se libere desse ciclo.

Feliz 2015!

* * *

O ano, como as pessoas, têm seu momento de senilidade, quando o futuro é curto e o fim é inevitável.

2014 está nessa fase.

Seus últimos dias se aproximando e o hábito de fazer checagens ficando cada vez mais urgente. É quando a gente olha pra trás e começa a perceber que não emagreceu os quilos que prometeu, que a academia foi ficando pra depois, que não produziu os textos que queria, não conseguiu ler mais, nem ver filmes, muito menos viajar.

O tempo, esse danado, foi passando e não deu a mínima aos planos. Enquanto seguimos fazendo o que de mais urgente aparece na nossa frente, nossas ambições de melhoria da vida vão sendo deixadas de lado.

Além de mim e de você, quantas outras pessoas não devem ter passado pelo mesmo?

Talvez, o chefe escroto tenha prometido pegar mais leve. Talvez, alguém próximo tenha prometido assumir a responsabilidade sobre as próprias falhas, ao invés de colocar a culpa em alguém. Talvez, o casamento tenha sido foco da promessa de alguma das partes: “agora vai”!

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Existe uma lição para ser aprendida aqui. Mas eu não sei o que é…

 

Mas nem tudo é desastre, nem tudo é catástrofe. Às vezes as coisas dão certo.

Um filho pode ter nascido. Um casamento pode ter se feito com uma bela cerimônia. Muitos amigos podem ter sido visitados. Ou, quem sabe, até aquelas promessas mais bobas que a gente nunca cumpre podem ter sido levadas a cabo, até o fim. Empregos, carros, casas novas, mudanças. Você pode ter conhecido alguém que fez esse coraçãozinho bobo sacolejar no peito. Sim, bons desfechos podem ter ocorrido.

Mas, também devemos lançar um olhar mais sincero a essas histórias que vamos contar sobre o ano que vai nos deixando. Sabemos que cada felicidadezinha, cada pequena vitória, cada suspiro de alívio vem acompanhado de algumas gotas de suor escorrendo pela testa. A gente sofre tentando ser feliz.

É aí que a gente começa a se ver repetindo aquilo que fez no começo do ano e as promessas de 2014 se transformam nas promessas de 2015. Afinal, é uma nova chance que surge.

Nada mais justo do que tentar outra vez.

Mas, aqui, queria propor um lembrete, para antes de girarmos novamente a roda do tempo.

Já parou pra pensar que as suas apostas e promessas serão as razões pelas quais você vai sofrer em 2015?

Luciano Ribeiro para o Papo de Homem.

Para entrarmos juntos no Ano Novo ali em frente

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Tem um Ano Novo ali em frente. Você já viu? Nós já podemos entrar. Mas vamos com calma. Todos nós cabemos lá. Tem espaço e tem tempo pra você e para mim e todo mundo. Os mesmos trezentos e sessenta e cinco dias que nos cabem estão lá, esperando. O Ano Novo está no ponto, os motores ligados, os dias organizados em fila indiana, as estações aguardando sua vez de acontecer.

Tem um Ano Novo ali em frente. Olha como é bonito em sua roupa nova, seu cheiro de tinta fresca, seu hálito doce de cachorro filhote lambendo o nariz da gente. Olha! Esse entusiasmo sincero de aluno novo, essa beleza de gente esforçada. Porque pouca coisa nesse mundo tem a graça honesta de quem se empenha no trabalho como quem dá jeito na vida! O Ano Novo ali em frente é uma delas. Está pronto, o coração aberto, as mãos operosas ansiando pelo que será.

Fácil não há de ser. Nunca é. Vai doer. Sempre dói. E talvez a dor piore com o tempo e a idade. Mas tentar ainda é o único jeito de fazer. Tem um Ano Novo ali em frente e eu tenho uma porção de votos para nós. Não repare no jeito, na pressa, mas daqui a pouco é meia-noite do dia 31 e se a gente não corre o prazo acaba e a mágica se perde.

Primeiro, eu desejo a você e a mim um pouco mais de leveza. Aliás, “um pouco” não. Eu desejo que a vida seja muito mais leve para nós. Não estou pedindo menos trabalho, menos afazeres e compromissos e prazos mais brandos. Nada disso. Eu só quero que vá longe o peso morto e inútil das picuinhas que grudam na vida feito carrapatos famintos. Então, libertos de tanta intriga e tanto fardo e tanta bobagem, você e eu seremos simplesmente mais leves e soltos em nosso caminho.

Que nesse caminho sobrem trabalho e saúde, amor e amigos. Que o solzinho manso do sábado de manhã e o vento amoroso do domingo à tarde escorreguem gentis para o resto da semana. E que as noites sejam carinhosas conosco. Que cada dia seja bom de lembrar como o primeiro encontro perfeito entre duas almas gêmeas ou, pelo menos, muito parecidas. Sabe esses encontros memoráveis em que a gente se pega, horas depois de se despedir, repassando mentalmente diálogos inteiros, e com um sorriso descarado na cara? É o que eu desejo para nós!

Depois, eu desejo que para cada idiota em que tropeçarmos por aí, a vida nos traga um dia inteiro de boas notícias. E como nunca faltam cretinos em qualquer canto, que o Ano Novo ali em frente seja para nós uma sequência infinita de boas novas.

Que na esteira de cada porrada que nos sobre no meio dessa briga feia de um dia depois do outro, apareça sempre alguém pedindo ajuda e que nós possamos ajudá-lo.

O ódio, a intolerância, o preconceito, a empáfia, a maldade, a indiferença, nada disso será bem-vindo! Melhor se ajeitarem no passado lá atrás.

Que os insultos e as esculhambações se percam na brisa fresca e franca da esperança. Que o mal desista de uma vez por todas. Para o bem de todos nós. E que as balas perdidas prossigam assim, perdidas, até se tornarem inofensivos pedaços de chumbo exaustos do disparo, despencando vencidos no fim. E que esse fim seja nada senão um muro duro, uma montanha vazia, o tronco de uma árvore centenária e sobrevivente, alheia a qualquer intempérie, nunca alguém de carne e osso e sonhos. Para que ninguém mais se machuque.

Quanto àqueles que querem ver você na rua da amargura, que sejam atropelados por um caminhão de amor na avenida dos afetos.

E que apesar de todos os nossos erros, você e eu sigamos levando a vida com correção e decência.

Eu desejo tudo isso, sim. Desejo profundamente. Porque vontade rasa não realiza nada.

E, sobretudo, eu desejo que a gente sonhe, sonhe muito. Sonhe juntos. E se o sonho não virar realidade, que a realidade vire sonho!

Tem um Ano Novo bem ali. Vamos a ele. Vamos a nós.

~ André J. Gomes para a Revista Bula.

O ano novo não existe

A cultura ocidental se baseia bastante na ideia evolutiva de que hoje somos melhores que ontem e amanhã seremos melhores que hoje. Logo, marcamos a semana de um jeito que soe progressiva e construímos narrativas internas em termos da jornada do herói: vida comum, desafio, recusa, aceite, luta final, vitória e retorno renovado para a vida comum.

Isso leva as pessoas a se perceberem subindo uma rampa imaginária para uma condição mais sofisticada de si mesmas que o dia anterior. E, mesmo sem esforços ou trabalho pessoal extra, acreditam-se arrastadas por essa correnteza evolucionista.

Essa atribuição do tempo como curador de mágoas e transformador de caráter é falha, ainda que muitos acreditem. A velhice resumiria o ícone da vida plena.

Se isso é verdadeiro, porque vemos tantas pessoas idosas mimadas, deprimidas, lamentando a vida e sem nenhuma alegria de viver?

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Certamente, não é porque os filhos desaparecem ou a aposentadoria é lamentável, mas provavelmente porque não criaram uma vida com algum tipo de significado ou reuniram uma rede de pessoas queridas em sua volta.

Os que fizeram isso, estão bem acompanhados e com trocados no bolso. O tempo não opera milagres, visto que é apenas a sucessão de minutos, e agora que já não estão protegidas pela jovialidade, deixam transbordar seu descontentamento de décadas com o ônus de fraqueza e doenças.

Até que ponto alguém realmente se torna mais complexo, maduro, responsável, livre e lúcido por pura inércia?

Essa lei da física parece que tem dominado o imaginário coletivo, mas é bom lembrar que isso é uma teoria científica aplicada à corpos físicos e não à psicologia humana.

A ideia da mente evolucionista parece acontecer em várias áreas da vida de relacionamentos amorosos, trabalho e traços de personalidade.

A linearidade crescente costuma ser a única forma de narrativa conhecida, logo o fim do ano sempre anuncia que o próximo ano será melhor que o anterior. Esse é um raciocínio automático e pouco plausível.

Os otimistas parecem tomar um fôlego psicológico a fim de renovar suas esperanças calcadas em elementos externos favoráveis torcendo por uma correnteza que progride inevitavelmente.

O próprio ato da promessa de ano novo reflete o anúncio do seu fracasso, já que atesta o automatismo habitual e paralisante de condicionar mudanças à coisas, pessoas e eventos. Promessa boa é promessa cumprida agora.

Não caia na armadilha de comprometer seu “eu futuro” a fazer uma coisa que vê propósito, mas não põe empenho. Talvez você tenha cedido aos seus mimos e distrações ao longo do ano e agora aquilo que imaginou no final de 2012 não corresponde ao seu “eu atual” do final de 2013. O problema é o mimo e não o começo de ano.

É inspiradora a cena do Forrest Gump em que ele começou a correr sem razão nenhuma e fez quase uma ultramaratona sem fim pelos EUA e sem motivo novamente parou.

A mudança nem sempre precisa ser pensada ou racionalizada, pode ser um simples dobrar de esquina na direção contrária.


Para muitos, a probabilidade de falhar consigo aumenta toda vez que se ancora em muita explicação, autoconsolo, carinho, apoio dos amigos e pais. Pensar e planejar ajuda, mas se sua sabotagem se apoia em planos intermináveis, o mais sensato seria pular para a ação e depois fazer o ajuste fino. Talvez, essa seja a melhor forma de sabotar a autossabotagem.

Esse elemento mágico projetado no transcorrer do tempo é só mais truque para seguir o ano arrastando correntes.

Por outro lado, acho válida a perspectiva cíclica que nos lembra que o tempo passa e estamos nos encaminhando para a morte. Essa finitude concreta, marcada pelo fim do ano poderia nos fazer arregalar os olhos para a singularidade de cada minuto irrecuperável.

Longe de um carpe diem de boteco que se enterra num presente hedonista, todo dia do ano é um convite para uma mudança que não precisa ser radical, se for inconsistente.

O ano novo realmente acontece a cada ato prático, insistente e dedicado para substituir uma atitude problemática e colocar no lugar outra que gere felicidade.

~ Frederico Mattos, para o Papo de Homem.