Contos mal contados

De vez em quando a gente se depara com páginas no Facebook, Tumblr ou Pinterest que se tornam um alento pra nossa alma. Pessoas que expõe sua alma de forma digital e conseguem alcançar o mundo inteiro com o alcance de um clique do mouse. Confesso que não são fáceis de encontrar. E é isso que as torna um verdadeiro tesouro.

Contos Mal Contados é uma página de poesias, contos e curtas histórias criada por João Pedro Doederlein, que se auto-denomina “um poeta que nasceu da necessidade, não da simples opção”. Ele e mais outras talentosas escritoras acrescentam a esse lindo portfólio imagens e escritos que tocam fundo dentro dos nossos coraçãozinhos, que mais se parecem com cebolas cheias de camadas.

Particularmente, o que mais me chamou atenção no seu trabalho foram uma série de definições dadas à palavras eventualmente banais, mas que se tornam recheadas de significados, como um dicionário mais humano e menos racional das coisas.

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Geralmente os textos postados aqui seguem indicação de outros sites. Esse aqui é meu mesmo! 🙂

P.S.: Me lembra um pouco (talvez muito!) o Minidicionário das Pequenas Grandes Coisas.

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A moça que roubou toda a beleza do mundo & outras histórias

Em O Escafandrista, o escritor mineiro Louraidan Larsen compartilha “as histórias que ouve nas ruas, as conversas com desconhecidos, as surpresas da vida”. Segundo ele, “tudo contado aqui aconteceu. Até aquilo que invento: aconteceu, mesmo.”

Conheci faz pouco tempo essas histórias, e me apaixonei. São lindas, curtas, singelas, poderosas. Tudo aquilo que a melhor literatura deveria ser. Abaixo, três narrativas aleatórias:

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A sala de estudos da biblioteca pública no centro da cidade estava cheia, lotada. Fui caminhando até o final, avistei um lugar, uma mesa sobrando, cheguei. Havia uma garrafa d’água vazia. Uma caneta marca-texto e uma apostila escrita “Prova de Língua Portuguesa”. Olhei para um lado, para o outro, e perguntei a uma moça sentada próxima. “Sabe se tem alguém aqui?”. Ela disse que já estava lá há um bom tempo e ninguém havia aparecido.

Resolvi sentar, até que reclamassem o direito à mesa. Quando fui arredar para o canto as coisas, vi um bilhete pequeno, em cima da apostila, escrito com letras de fôrma, letra de homem: “Oi! Todo mundo queria sentar aqui e ficaram reclamando que você saiu e demorou muito a voltar. Se não fosse eu, que te defendi, iam tirar seu material daqui. Mas só fiz isso pq vc roubou toda a beleza do mundo e não deixou para as outras mulheres”.

Esperei, esperei. Fiquei uma hora, duas, as pessoas foram esvaziando o lugar. Vontade era conhecer a pessoa ladra de belezas, entregar o recado, ver sua reação. Em vão. A biblioteca fechou, e não apareceu. A apostila, a garrafa d`água, a caneta: tudo ficou lá. O bilhete também. Até a luz se apagar – mas a sala de estudos, vazia, dormiu, naquele dia, sabendo que nela estiveram pessoas, conversas, histórias, romances, poesias e toda a beleza do mundo.

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Estava na fila de um supermercado, quando um rapaz bem magro, de braços finos, veio me perguntar se podia pagar pra ele. Carregava arroz, óleo, macarrão e leite de soja. Sou ex-presidiário, começamos a conversar. Por que você foi preso? Homicídio. Você matou alguém, é isso? Sim, matei um homem que roubou minha tia.

Almir ficou preso por 2 anos e 7 meses. Havia saído da cadeia na semana anterior. Na mão, entre as compras, tinha uma bíblia pequena. Leu pra mim o salmo 92. “(…) Os justos florescerão como a palmeira (…)”.

Antes de nos despedirmos, ele me contou que a sobrinha ia se casar. Sobrinha que faz enfermagem. Vai ser uma honra ver você lá, se puder ir, disse. E me entregou anotado em um papel o telefone do pai, que mora próximo a ele. Você pode ligar, já está convidado. E saiu.

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Eu estava em pé, de frente pra menina sentada de camisa rosa e cabelo preso. Parecia nervosa, escrevendo no celular. “Vou sentir muita saudade. Mas sei o quanto você…”, e apagou, enquanto mexia no cabelo, e olhava para as pessoas no ônibus. Até que voltou a escrever: “Vou sentir muita saudade. Sei que vc já não estava mais satisfeita”.

Nesse momento, o moço que estava ao seu lado levantou. Ela, então, esperou a senhora com bolsas pegar o lugar do rapaz, para continuar: “Vou sentir muita saudade. Sei que vc já não estava mais satisfeita. Vai ser difícil acostumar toda manhã sem vc”. E parou pra pensar. Fez que ia apagar toda a mensagem, mas voltou a digitar: “Vou sentir muita saudade. Sei que vc já não estava mais satisfeita. Vai ser difícil acostumar toda manhã sem vc. Mas o importante é que está feliz, então, eu fico feliz tb. Gosto muito de vc,”.

Com o celular na mão, mais uma vez ela se interrompeu. Olhou pro movimento dos carros na rua… Mas decidiu terminar: “Vou sentir muita saudade. Sei que vc já não estava mais satisfeita. Vai ser difícil acostumar toda manhã sem vc. Mas o importante é que está feliz, então, eu fico feliz tb. Gosto muito de vc, quero te levar pra sempre na minha vida. Vc me fez chorar dentro do ônibus lotado”. Ponto. Ela chorou. E enviou.

* * *

Alex Castro para o Papo de Homem.