Contos mal contados

De vez em quando a gente se depara com páginas no Facebook, Tumblr ou Pinterest que se tornam um alento pra nossa alma. Pessoas que expõe sua alma de forma digital e conseguem alcançar o mundo inteiro com o alcance de um clique do mouse. Confesso que não são fáceis de encontrar. E é isso que as torna um verdadeiro tesouro.

Contos Mal Contados é uma página de poesias, contos e curtas histórias criada por João Pedro Doederlein, que se auto-denomina “um poeta que nasceu da necessidade, não da simples opção”. Ele e mais outras talentosas escritoras acrescentam a esse lindo portfólio imagens e escritos que tocam fundo dentro dos nossos coraçãozinhos, que mais se parecem com cebolas cheias de camadas.

Particularmente, o que mais me chamou atenção no seu trabalho foram uma série de definições dadas à palavras eventualmente banais, mas que se tornam recheadas de significados, como um dicionário mais humano e menos racional das coisas.

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Geralmente os textos postados aqui seguem indicação de outros sites. Esse aqui é meu mesmo! 🙂

P.S.: Me lembra um pouco (talvez muito!) o Minidicionário das Pequenas Grandes Coisas.

O grande cansaço

Compartilho com você meu sonho para 2015 2016. Em vez de chamar sua mente discursiva, falo de coração com a vida misteriosa que agora encara essa tela.

Desejo que voltemos das férias muito cansados. Não renovados, não dispostos: exaustos!

Cansados de carregar o dia inteiro para dentro de cada noite, de trazer nosso passado por trás dos olhos, ano após ano, encardidos de certezas sobre a vida, acumulando experiências, incapazes de soltar e dizer para a pessoa que acabamos de encontrar: “Oi, prazer, acabei de chegar…”

Cansados de compartilhar frases de sabedorias que não sabemos praticar. Cansados de falar mal dos outros, sem reconhecer que vemos fora o que temos dentro. Cansados de tentar o caminho do controle, como uma mosca batendo no vidro, de novo e de novo, sem desconfiar que talvez não seja uma boa ideia condicionar o brilho de nosso olho ao movimento de outros olhos. Cansados de ser tão repetitivos, monotemáticos, tão nós mesmos.

Cansados de nos ocupar, como se relaxar fosse errado. Cansados de buscar o sucesso e temer o fracasso, não importa o quão refinado seja o nosso jogo. Cansados de ceder ao ciúme do outro, de fazer cafuné em seus hábitos negativos, de negociar com cada aflição que nos tiraniza. Cansados de aceitar migalhas de alegria.

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Cansados de desejar tanta mediocridade para nós mesmos, como se fossem aspirações elevadas (“Que eu passe no concurso! Que eu me case!”), quando poderíamos mirar no céu: “Que minha simples presença possa beneficiar mais e mais pessoas!”

Cansados de confundir nossa bolha com a realidade, sem perceber que os seres não caminham pelo nosso mundo: cada um deles está no centro de um outro mundo. Cansados de reagir e reagir e reagir e reagir, sem nunca estalar os dedos. Cansados de se cansar tão facilmente.

O problema é que a gente não se esgota o suficiente — só 50% não leva à transformação. As coisas só tem o poder de nos cansar porque nós ainda não nos cansamos delas. Lembro de um retiro com o professor Alan Wallace listando as causas desse desgaste sem saída até culminar com força, como se falasse em caixa alta, seco, preciso, cortante: “BASTA!”

É um gesto radical que rompe o loop de sofrimento, parecido com o de Chögyam Trungpa, que virou até caligrafia na entrada de sua casa: deveríamos aprender a proclamar um gigantesco e definitivo “Não” para nossa confusão autocentrada.

Que possamos interromper nosso falatório incessante. Que possamos enfim parar. Começando agora!

No grande cansaço, nessa completa desistência, bem quietos, deitamos. Daqui a pouco um ser brincante, desses completamente livres, vai nos levantar pelo braço: “Venha! Há muito trabalho para quem não mais se cansa.”

~ Gustavo Gitti. Texto recebido por e-mail.

10 coisas que você deveria desejar nesse começo de ano

Muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender! O brinde-jingle-de-ano-novo é aquele bom e velho clichê no qual mal pensamos, desejamos automaticamente sem entender o que queremos de verdade.

Afinal mesmo com saúde e dinheiro, não ficamos em paz, então eu queria fazer algumas sugestões mais relevantes para sua virada ano:

1. Liberdade interna

Diferente de aumento de espaço físico, viajar para lugares paradisíacos, fazer o que tiver vontade, euforia no meio da estrada ou não receber ordens, a liberdade é um tipo de capacidade de deliberar com o mínimo de condicionamento restritivo.

Uma pessoa que só vive fazendo mochilão pode estar tão asfixiada quanto um funcionário workaholic de multinacional. Alguém que vive praticando o “bem” pode estar tão preso nesse script quanto o bad boy cheio de opinião.

Liberdade parece mais uma habilidade de atravessar aquela tentativa da nossa mente de solidificar a vida num frasquinho de certeza. No ano que começa trabalhe nisso.

2. Desejos mais conscientes

Se você apenas ajoelha e obedece tudo o que passa no campo dos seus desejos então você será refém do consumismo, da sua gula, do egocentrismo, da sua arrogância e até da necessidade compulsiva de ficar pregando a paz na Terra e perdendo os amigos com sua chatice.

Qualquer tipo de desejo, dos mais nobres aos mais imediatistas, se passarem invisíveis ao seu radar consciente levarão você inevitavelmente de objetos em objetos sem parada só para que você fique satisfeito.

O resultado será só mais insatisfação.

3. Capacidade de gerar felicidade

Estar cercado de mimos é até fácil, mas conseguir captar um sorriso genuíno de alguém parece ter um efeito reverberante muito mais poderoso. Essa cadeia de gentilezas e de olhar atento ao caminho do outro cria um ciclo de cafuné coletivo.

O meio ambiente agradece e quem mora na sua casa também.

4. Resiliência para os dias difíceis

O ano certamente trará chances para você se agarrar naquilo que acha que o fará feliz, mas esconde uma dose grande de sofrimento pelo apego. Eu desejo que você consiga perceber que está idolatrando algo mais do que deveria para resistir ao impulso de ficar aprisionado na sua própria alegria e por isso ficar incapaz de usufruir a vida com leveza.

Ao conseguir resistir ao impulso de se fechar numa ideia, lugar ou pessoa, os dias difíceis tendem a ser mais fáceis.

5. Capacidade de negociar com seus próprios desejos

Se eu desejar muito dinheiro no bolso, posso afirmar que nem toda fortuna existente do mundo conseguirá pagar o que seu desejo.

Espero que você não tenha tudo o que deseja e possa ficar bem com isso.

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6. Saber reconhecer os movimentos internos

Quero que você consiga ter um GPS interno para se guiar nas suas rotas pessoais, que consiga não se perder em si mesmo com atitudes impulsivas, reativas e que estejam desconectadas de seus valores internos.

Quero que você saiba mergulhar com mais facilidade para dentro antes de sair desembestado tomando grandes ou pequenas decisões que fecharão seu caminho.

7. Lidar com a incompletude da vida

Desejo que você lide com o fato de que sempre haverá uma dimensão de incompletude na vida. Você só se torna esse poço de inconformação e insatisfação por que ainda tem uma esperança de algum dia isso ser saciado.

Não, não haverá algum momento em que você terá chegado no topo da montanha, não há topo e nem montanha.

8. Parar de sonhar com realidades mágicas

O que é uma realidade mágica? É aquilo que causa angústia só de pensar, por que é muito grande, descolado de qualquer senso de realidade, que carece de qualquer planejamento e está tão fora de sua área de influência que chega a doer.

Espero que você consiga olhar ao redor e consiga reconhecer quanta beleza já existe na sua vida, mesmo essa porção fragmentada, manca, incompleta, estranha e contraditória.

9. Assumir que nada acontece se você não gerenciar o medo

Se você ainda insistir que só uma meta vai salvar sua alma e seu ano, então desejo que aprenda a conviver com o medo constante do fracasso, da perda, do desapontamento, da rejeição e do “quase”.

Se quer garantia absoluta e nenhum medo então você não entendeu nada sobre atingir metas. Aquilo que você acha que deseja mais que tudo só tem essa magnitude pois está fora de sua zona de conforto.

Seu próximo passo já está calculado e pré-aprovado? Espere chegar no final do ano que vem.

10. Parar de achar que as listas são autorrealizáveis

Essa lista não tem o poder de se realizar porque você achou ela incrível ou disse no fundo do seu coração “vou realizar”. Não.

Ela precisa de pequenas doses de treino diário. São posturas mentais, muito mais do que flexões ou abdominais, mas que para terem resultado seguem a mesma disciplina de academia. Só boa vontade não resolve nada.

As perguntas que você deve se fazer, de acordo com essa lista são: eu realmente vou me limitar a isso? O que eu realmente desejo? Eu posso facilitar a vida de alguém? Estou preso ao meu sofrimento? Estou conectado aos meus valores? O que se passa dentro de mim? O que não aceito nessa vida? Estou mirando para muito longe de mim? Posso lidar com esse medo?

~ Frederico Mattos para o Papo de Homem.

Para entrarmos juntos no Ano Novo ali em frente

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Tem um Ano Novo ali em frente. Você já viu? Nós já podemos entrar. Mas vamos com calma. Todos nós cabemos lá. Tem espaço e tem tempo pra você e para mim e todo mundo. Os mesmos trezentos e sessenta e cinco dias que nos cabem estão lá, esperando. O Ano Novo está no ponto, os motores ligados, os dias organizados em fila indiana, as estações aguardando sua vez de acontecer.

Tem um Ano Novo ali em frente. Olha como é bonito em sua roupa nova, seu cheiro de tinta fresca, seu hálito doce de cachorro filhote lambendo o nariz da gente. Olha! Esse entusiasmo sincero de aluno novo, essa beleza de gente esforçada. Porque pouca coisa nesse mundo tem a graça honesta de quem se empenha no trabalho como quem dá jeito na vida! O Ano Novo ali em frente é uma delas. Está pronto, o coração aberto, as mãos operosas ansiando pelo que será.

Fácil não há de ser. Nunca é. Vai doer. Sempre dói. E talvez a dor piore com o tempo e a idade. Mas tentar ainda é o único jeito de fazer. Tem um Ano Novo ali em frente e eu tenho uma porção de votos para nós. Não repare no jeito, na pressa, mas daqui a pouco é meia-noite do dia 31 e se a gente não corre o prazo acaba e a mágica se perde.

Primeiro, eu desejo a você e a mim um pouco mais de leveza. Aliás, “um pouco” não. Eu desejo que a vida seja muito mais leve para nós. Não estou pedindo menos trabalho, menos afazeres e compromissos e prazos mais brandos. Nada disso. Eu só quero que vá longe o peso morto e inútil das picuinhas que grudam na vida feito carrapatos famintos. Então, libertos de tanta intriga e tanto fardo e tanta bobagem, você e eu seremos simplesmente mais leves e soltos em nosso caminho.

Que nesse caminho sobrem trabalho e saúde, amor e amigos. Que o solzinho manso do sábado de manhã e o vento amoroso do domingo à tarde escorreguem gentis para o resto da semana. E que as noites sejam carinhosas conosco. Que cada dia seja bom de lembrar como o primeiro encontro perfeito entre duas almas gêmeas ou, pelo menos, muito parecidas. Sabe esses encontros memoráveis em que a gente se pega, horas depois de se despedir, repassando mentalmente diálogos inteiros, e com um sorriso descarado na cara? É o que eu desejo para nós!

Depois, eu desejo que para cada idiota em que tropeçarmos por aí, a vida nos traga um dia inteiro de boas notícias. E como nunca faltam cretinos em qualquer canto, que o Ano Novo ali em frente seja para nós uma sequência infinita de boas novas.

Que na esteira de cada porrada que nos sobre no meio dessa briga feia de um dia depois do outro, apareça sempre alguém pedindo ajuda e que nós possamos ajudá-lo.

O ódio, a intolerância, o preconceito, a empáfia, a maldade, a indiferença, nada disso será bem-vindo! Melhor se ajeitarem no passado lá atrás.

Que os insultos e as esculhambações se percam na brisa fresca e franca da esperança. Que o mal desista de uma vez por todas. Para o bem de todos nós. E que as balas perdidas prossigam assim, perdidas, até se tornarem inofensivos pedaços de chumbo exaustos do disparo, despencando vencidos no fim. E que esse fim seja nada senão um muro duro, uma montanha vazia, o tronco de uma árvore centenária e sobrevivente, alheia a qualquer intempérie, nunca alguém de carne e osso e sonhos. Para que ninguém mais se machuque.

Quanto àqueles que querem ver você na rua da amargura, que sejam atropelados por um caminhão de amor na avenida dos afetos.

E que apesar de todos os nossos erros, você e eu sigamos levando a vida com correção e decência.

Eu desejo tudo isso, sim. Desejo profundamente. Porque vontade rasa não realiza nada.

E, sobretudo, eu desejo que a gente sonhe, sonhe muito. Sonhe juntos. E se o sonho não virar realidade, que a realidade vire sonho!

Tem um Ano Novo bem ali. Vamos a ele. Vamos a nós.

~ André J. Gomes para a Revista Bula.

Sapiossexual, fosfeno, acídia, malaxofobia, ultracrepidanismo & outras

A lógica me diz que houve um dia em que o ser humano não tinha palavras. Qualquer comunicação era presumida. Apontávamos, talvez? Grunhíamos? Mostrávamos com a mão.

Até o dia em que, imagino eu, após perder meia dúzia de companheiros de caça para os tigres dente-de-sabre, um dos nossos ancestrais viu que era um saco ter que ficar improvisando a cada vez um aviso diferente. Decidiu que teria um grunhido específico para dar esse aviso ao seu próximo colega. Nascia aí a versão ancestral do nosso “corre!”.

Daí em diante, não paramos mais. Deve ter sido uma diversão (ou uma dor de cabeça) para as primeiras gerações de humanos, ter que associar cada coisa das suas vidas a um som específico feito com a boca.

Imagino que provavelmente começamos apenas com os substantivos. Pedra, caverna, fruta, mulher, homem, criança. Tigre. Depois, somente bem depois, devem ter sentido a necessidade de ter adjetivos. Os advérbios, ah, esses devem ser invenção recente, de quem já não tinha mais muito o que fazer.

O lance é que aos poucos fomos inventando palavras para tudo. Até para o que não necessariamente precisava de uma palavra. Em um autêntico processo coemergente, vimos as palavras surgirem das necessidades, e, depois, as necessidades surgirem das palavras.

Se é assim, vamos aprender algumas a mais.

Todas essas palavras vieram da ótima timeline Glossário, no Facebook, que é atualizada frequentemente com novas imagens.

Qual a sua palavra favorita, entre todas as que conhece em qualquer língua que seja?

Autor: Fabio Bracht. Fonte: Papo de Homem.