Contos mal contados

De vez em quando a gente se depara com páginas no Facebook, Tumblr ou Pinterest que se tornam um alento pra nossa alma. Pessoas que expõe sua alma de forma digital e conseguem alcançar o mundo inteiro com o alcance de um clique do mouse. Confesso que não são fáceis de encontrar. E é isso que as torna um verdadeiro tesouro.

Contos Mal Contados é uma página de poesias, contos e curtas histórias criada por João Pedro Doederlein, que se auto-denomina “um poeta que nasceu da necessidade, não da simples opção”. Ele e mais outras talentosas escritoras acrescentam a esse lindo portfólio imagens e escritos que tocam fundo dentro dos nossos coraçãozinhos, que mais se parecem com cebolas cheias de camadas.

Particularmente, o que mais me chamou atenção no seu trabalho foram uma série de definições dadas à palavras eventualmente banais, mas que se tornam recheadas de significados, como um dicionário mais humano e menos racional das coisas.

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Geralmente os textos postados aqui seguem indicação de outros sites. Esse aqui é meu mesmo! 🙂

P.S.: Me lembra um pouco (talvez muito!) o Minidicionário das Pequenas Grandes Coisas.

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Os dois lados da mesma moeda

LADO 1.

Estávamos Dra. Greta Garboreta e eu, Dr. Zequim Bonito, prestes a encerrar nossa rotina de trabalho. Estávamos virando a esquina do último corredor que nos levaria de volta à salinha onde nos desfazemos de nossas personalidades de palhaço para voltarmos a ser gente normal, se é que gente normal existe.

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Antes de virar a esquina do último corredor, as moças da recepção pediram uma foto.

Clique, clique, flash e lá estávamos nós registrados em mais um celular. Ou então em uma página de Facebook, onde seremos uma foto compartilhada, curtida, comentada, criticada, ridicularizada, insultada, venerada, ou simplesmente ignorada. E assim a vida segue seu fluxo. 

LADO 2.

Depois da foto estávamos, agora sim, prestes a encerrar nossa rotina de trabalho.

Palhacinho! Palhacinho!, ouvimos de longe.

Vimos logo de cara que a solicitação era de outro teor. Teria sido tão melhor se fosse apenas mais uma foto. Mas não era. A mulher que nos chamava estava aos prantos. Ela saíra desnorteada do elevador, acompanhada por familiares, todos visivelmente muito abatidos.

Começava ali um daqueles momentos que nos pegam de calça curta. Não era a primeira vez que acontecia. Já vivemos situações parecidas em outros hospitais, com outros familiares, com outros palhaços e, com mais ou menos traquejo, a cada vez que tal situação aconteceu tivemos que lidar com o vazio que invariavelmente ela nos impõe. O indizível vazio que a finitude nos reserva.

Palhacinho, o meu neto morreu! 

Houve um silêncio.

Palhacinho, o meu neto morreu! O meu neto. Vocês conheceram ele, lembra? 

Nós já sabíamos da notícia. Tínhamos estado na UTI no começo de nosso dia de trabalho, antes da chegada dos pais e acompanhantes. Naquela hora, só estavam presentes na UTI os profissionais da equipe de saúde cujos semblantes também estampavam as sequelas do vazio.

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O caso do menino era grave. O nome complicado da doença, sua complexidade e agravantes não tinham a menor importância naquele momento. Para aquela avó, ali, agora, só existia o vazio e o mais que justificado descontrole emocional que ele causa, sobretudo quando esse vazio é deixado pela ausência de uma criança.

Palhacinho, me dá um abraço! 

Houve outro silêncio, desconcertante.

De repente, diante dessa solicitação concreta, extraída com inacreditável força e nitidez daquele turbilhão de dor, o vazio foi momentaneamente rompido. Com um gesto simples e sincero nosso abraço foi dado, partilhado com aquela avó. Não falamos nada. Nada de que lembramos, pelo menos. Só ouvimos.

Obrigado, palhacinho.

E depois voltaram os prantos, o turbilhão de dor e, se a vida seguir seu fluxo, o começo do luto.

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~ Nereu Afonso para o Doutores da Alegria.

A enfermidade é um conflito entre a personalidade e a alma

O resfriado escorre quando o corpo não chora.
A dor de garganta entope quando não é possível comunicar as aflições.
O estômago arde quando as raivas não conseguem sair.
O diabetes invade quando a solidão dói.

O corpo engorda quando a insatisfação aperta.
A dor de cabeça deprime quando as duvidas aumentam.
O coração desiste quando o sentido da vida parece terminar.
A alergia aparece quando o perfeccionismo fica intolerável.

As unhas quebram quando as defesas ficam ameaçadas.
O peito aperta quando o orgulho escraviza.
A pressão sobe quando o medo aprisiona.
A febre esquenta quando as defesas detonam as fronteiras da imunidade.

Os joelhos doem quando o orgulho não se dobra.
O câncer mata quando não se perdoa e/ou cansa de viver.
E as dores caladas? Como falam em nosso corpo?
A enfermidade não é má, ela avisa quando erramos a direção.

Não se iludam: Deus não se deixa enganar.
Pois o que o homem semear, isso também colherá. ~ Gálatas 6:7

P.S.: Recebi esse texto por e-mail. Não obtive sucesso em localizar sua autoria.

Três chutes no saco: verdades que você finge não ver

Frequentemente caminhamos pela vida de olhos vendados. E muitas vezes esta não é uma condição involuntária. É incrível como fazemos questão de nos deixar enganar com medo de encarar algumas verdades. Preferimos seguir caindo nos mesmos buracos, alimentando tipos específicos de ilusão com a única finalidade de nos agarrarmos, desesperados como mendigos, a qualquer pequena felicidade.

Para nos libertar disso, a vida costuma dar golpes muito bem aplicados. A única opção é acordar por meio da dor e seguir em frente com a frágil esperança de não repetir os mesmos enganos.

Este texto é uma simulação tosca deste tipo de golpe. É apenas um alerta, uma leve ameaça para relembrá-lo de algumas verdades que você finge não ver. Longe de ser doloroso como aqueles chutes dos quais nos contorcemos só de imaginar. Longe de ser igual a ser surpreendido no erro. Muito longe.

1. VOCÊ NÃO TEM AMIGOS

Dias difíceis sempre voltam. Sempre nos pegam no meio da ascensão e nos fazem lembrar da violência da força da gravidade. Nesses momentos, nada mais justo do que ir atrás dos amigos em busca de apoio.

As situações se repetem e nós já nos pegamos, diversas vezes, precisando de ajuda. Então, de repente, olhamos para os lados e estamos sozinhos. É nesse momento que nos vemos reclamando, sem saber em que direção seguir, já que não conseguiremos chorar as pitangas em nenhum ombro pré-definido.

É interessante notar como temos o hábito de agir baseados em pura politicagem e dar a isso o nome de amizade. Temos a mania de esperar que alguém faça algo por nós e de adicionar boas doses de culpa e amargura quando essas expectativas são quebradas. Ou seja, como volta e meia nos tolhemos pensando “ele é meu amigo, não vou fazer isso”, ficamos extremamente contrariados quando a recíproca não é verdadeira.

O que chamamos de amizade nada mais é do que um conjunto de expectativas mais ou menos definidas. Amigo é aquele que se move dentro desse cercadinho sem reclamar qualquer liberdade além dos limites. Por isso, relações de amizade vão se dissolvendo uma a uma com o decorrer dos anos. Este fenômeno ocorre pelo simples fato de que ninguém tem a obrigação de viver em função dos nossos caprichos e desejos. Os amigos, principalmente, têm a obrigação de não fazê-lo.

“Você não tem amigos” quer dizer, na realidade, que não há verdadeira amizade naquela base romantizada à qual estamos acostumados a encarar certas coisas. Ninguém deve algo a você. Ninguém tem a obrigação de salvá-lo ou consolá-lo. É até errado achar que alguém vai defendê-lo incondicionalmente, em qualquer circunstância. Agir no mundo o tempo inteiro, como se a salvação viesse de maneira inevitável, é preparar-se com carinho para o momento em que a vida virá fodê-lo bem gostoso.

Essa lógica da amizade nos infere de forma que, se formos meninos bonzinhos e agirmos de acordo com os desejos de todos, teremos muitos amigos com quem contar.

Lógica, no meu dicionário, é algo que costuma falhar quando menos esperamos.

2. NINGUÉM PRECISA DE VOCÊ

Você pensa que tem algum talento especial. Acha que saber tocar, cantar, escrever, atuar, programar um robô ou construir uma casa o torna alguém especial. Você acredita nos comentários elogiosos quando faz algo pelos outros. Olha para a sua vida e tem a nítida impressão de que é o personagem principal de uma grande trama cósmica, caminhando rumo ao cumprimento do seu destino.

Não é bem assim que os outros vêem a coisa. Não importa o quanto você seja talentoso, esperto e bonito. Não importa o quanto você já tenha feito, muito provavelmente depois da sua morte será esquecido num tempo não muito longo.

Mesmo numa situação não tão extrema, sua posição no mundo também não significa tanta coisa. Você se considera essencial na empresa onde trabalha? Surpreenda-se ao ser demitido e ver que a empresa segue sem maiores oscilações. Gosta de se autoafirmar por ter uma namorada apaixonada e acredita que ela o ama mais do que a qualquer outro? Tenho certeza que vai doer bastante quando ver as novas fotografias dela apaixonada por outra pessoa.

A verdade é que não interessa em nada o grau de importância que damos às nossas atividades, sentimentos ou intenções. O mundo seguirá sem grandes impactos quando desaparecermos.

3. VOCÊ NÃO É, E NUNCA SERÁ INDEPENDENTE

Você precisou dos seus pais para alimentá-lo, ensiná-lo a falar, andar, levá-lo à escola. Lá teve uma professora que o ensinou a ler e escrever. Houve cozinheiras que fizeram lanches, pedagogas que acompanharam seu desempenho e corrigiram seus péssimos hábitos.

Hoje você é servido por um garçom no restaurante onde almoça todos os dias, pessoa essa que tem todo o poder de sacaneá-lo de forma épica caso você o destrate. Hoje, pessoas alternam-se em turnos para garantir que não faltará energia elétrica quando outras pessoas estiverem fazendo uma cirurgia em você. Engenheiros construíram os prédios onde você mora e trabalha. A água com a qual toma banho e escova os dentes só sai pela torneira porque houve alguém que se dedicou a levá-la até onde você mora. E ela ainda se mantém jorrando, pois há uma pessoa garantindo que isso continue acontecendo.

Não importa se você se dá conta do processo ou não, ele existe. Sempre existirá alguém que faz algo que você não é capaz de fazer. E esse algo provavelmente contribui de uma maneira essencial na sua vida, mesmo que não haja compreensão da sua parte.

O adolescente trancado no quarto talvez não tenha a noção precisa de que existe uma rede de pessoas, de ruas, de bairros, de cidades e de regiões constituindo um todo maior que é o seu país, o sistema capitalista/socialista/qualquer-coisa-ista, o planeta Terra, o sistema solar e o universo. No entanto, tudo isso está operando, seguindo mesmo sem sua aprovação. O universo todo está no seu quarto, quer ele saiba ou não.

Somos tão frágeis e dependentes como éramos quando bebês, aprendendo a caminhar e recebendo papinha na boca. É impossível se virar sozinho. Você sempre vai precisar de outras pessoas. É burrice achar que não precisa e não deve nada a ninguém.

Os pontos cegos

Se, por um lado, costumamos agir dentro desses padrões, por outro, estamos completamente livres para agir de forma diferente. Esses pequenos pontos cegos nada mais são do que isso. Apenas pontos cegos. Basta contemplar um pouco e eles tendem a desaparecer.

A dificuldade é que, frequentemente, nos esquecemos de iluminar estes pontos e eles voltam a ficar obscuros. A partir disso, começamos a agir cegamente outra vez, até que repitamos o processo todo.

Ao mesmo tempo, às vezes até estamos vendo, mas preferimos fingir que não. Parece ser mais fácil fechar os olhos e torcer para que nada disso seja verdade, torcer para que tudo permaneça dando certo até o final da vida, quando poderemos dizer que fizemos tudo direitinho.

O grande lance é que vamos voltar a acreditar em tudo isso, principalmente quando o relacionamento estiver feliz, o emprego pagando bem, os amigos presentes e nos fecharmos em nós mesmos. É o que queremos.

A melhor coisa que pode nos acontecer é ter essas bases destruídas pelo menos uma vez. Se for tudo ao mesmo tempo, melhor ainda. Assim, poderemos verdadeiramente ver e sentir a fragilidade do que tomamos por sólido na vida.

Texto adaptado, de autoria de Luciano Ribeiro. Fonte: Papo de Homem.