A Terra vista de cima

Apenas por diversão, aqui estão algumas imagens recentes de nosso querido planetinha, com todo o seu seu esplendor de forma como pode ser visto por cima. Tiradas há apenas algumas centenas de metros de distância, ou tanto quanto a um milhão de quilômetros, a variedade e beleza da Terra retratadas nestas fotos continuam a surpreender.

main_900 (15)

18/07/2015 Um balão de ar quente sobrevoa os campos dos arredores de Minsk, Rússia, durante o Segundo Campeonato Internacional de Aeronáutica.

main_900 (14)

06/07/2015 Planeta Terra, visto a mais de um milhão de quilômetros. A câmera do satélite de observação climático retornou a sua primeira fotografia de todo o lado iluminado da Terra. A imagem mostra as Américas do Norte e Central.

main_900 (13)

14/07/2015 O Arco do Triunfo, no centro da Place Charles de Gaulle, também conhecida como a Place de l’Etoile, no meio de telhados de edifícios residenciais em Paris, França.

main_900 (12)

29/09/2014 Um céu nebuloso paira acima de um rio na região amazônica do Peru.

main_900 (11)

30/06/2015 As Ilhas Frioul no mar Mediterrâneo perto de Marselha, na França.

main_900 (10)

08/09/2013 A torre norte da ponte Golden Gate, rodeada por um nevoeiro, na Califórnia, Estados Unidos.

main_900 (9)

15/04/2015 Campos de flores próximos do Parque Keukenhof, também conhecido como o Jardim da Europa, em Lisse, Holanda.

main_900 (8)

12/07/2015 Vista da Estação Espacial Internacional sobre o Golfo do México. As luzes de Houston, Estados Unidos, são proeminentes no lado esquerdo, com New Orleans e do delta do rio Mississippi no centro. As muitas luzes no golfo são plataformas de petróleo e navios.

main_900 (7)

07/08/2014 Casas em Bristol, sul da Inglaterra.

main_900 (6)

08/07/2014 Geleira Malaspina no sudeste do Alasca, o maior vale glacial do mundo se espalha nivelando toda uma planície. No canto superior direito aparece a geleira Hubbard.

main_900 (5)

24/02/2015 O sol se põe acima da praia de Ipanema, no Rio de Janeiro.

main_900 (4)

20/05/2015 O MODIS, satélite da NASA, capturou esta vista de vários vórtices de nuvens sobre as Ilhas Canárias e Madeira.

main_900 (3)

09/06/2014 Cataratas do Iguaçu, na província noroeste argentina. As autoridades foram forçadas a fechar o icônico Parque Nacional do Iguaçu após chuvas fortes na região que fizeram com que o rio Paraná inundar. As passarelas turísticas e pontos de vista que normalmente dão lugar a vista deslumbrante sobre as quedas d’água foram quase totalmente submersas pela água.

main_900 (2)

25/05/2015 Arquitetura da cidade de Chicago, Estados Unidos, iluminada à noite.

main_900 (1)

19/04/2015 A pirâmide curvada de Dahshur, uma necrópole real localizada no deserto da margem oeste do rio Nilo, ao sul do Cairo, Egito.

main_900

15/07/2015 Estátua da Mãe Pátria no complexo memorial da 2ª Guerra Mundial, na cidade de Volgograd, Rússia.

main_900 (16)

14/07/2015 Canteiro de obras da construção da Disneylândia de Xangai, na China. O parque temático orçado em US$ 5,5 bilhões, está sendo desenvolvido pela Disney em parceria com a estatal Shanghai Shendi Group, e irá transportar os visitantes para réplicas de seis parques temáticos “mundiais”, oferecendo ainda outras atrações com base em personagens de Star Wars e da Marvel Comics.

main_900 (17)

03/04/2015 Astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional tiraram esta fotografia do sul da Escandinávia, pouco antes da meia-noite.

main_900 (18)

09/05/2015 Trilhos de trem no pátio da estação de Maschen em Seevetal, Alemanha.

main_900 (19)

21/03/2015 Moradias fora da cidade de Diffa, Nigéria.

main_900 (20)

18/03/2015 Vapor e cinzas do vulcão Villarrica, sul de Santiago, Chile.

main_900 (21)

08/05/2015 Campo de colza em plena floração perto Ebenhausen, Alemanha.

~ Imagens compiladas do The Atlantic.

NatGeo Photography Traveler Photo Contest 2015

O 27º Concurso Anual da National Geographic Traveler encerrou suas inscrições no último dia 30 de junho. O vencedor do prêmio principal ganhará uma expedição de oito dias, com direito a acompanhante, para a Costa Rica e o Canal do Panamá.  A National Geographic cedeu ao jornal The Atlantic a gentileza de compartilhar algumas das primeiras fotografias selecionadas, recolhidas a partir de quatro categorias: “Retratos de Viagem”, “Cenas ao Ar Livre”, “Senso de Lugar”, e “Momentos Espontâneos”:

Urso marron fotografado nas Florestas Finnish, Finlândia. © Chris Schmid
Elefante nadando nas Ilhas Andamã, Índia. © Mike Korostelev
Nevoeiro cobre parte da ponte Golden Gate, Estados Unidos. © Liu He
Petrel Havaiano se alimentando de sardinhas em Baja California, México. © Alejandro Prieto
Amanhecer em Salar de Uyuni, Bolívia. © Hideki Mizuta
Fêmea de urso polar em Svalbard, Noruega. © Daniele Bertin
Monastério Takstang, no Butão. Também conhecido como “Ninho do Tigre”. © Robert Feakins
Via-Láctea sob Yosemite, Estados Unidos. © Matthew Saville
Redes instaladas a 40 metros do chão, no Monte Piana, Itália. © Sebastian Wahlhuetter
Baleia próxima aos icebergs na Antártida. © John Kahan
Baleia fotografada próxima ao reino de Tonga, na Oceania. © Marc Henauer
Erupção vulcânica próxima à Puerto Varas, Chile. © Cote Baeza
Ilulissat Kangia, Groenlândia. © Charles Lin
Estrada de ferro Tsugaru em Aomori, Japão. © Sho Shibata
Leopardo-da-Neve. © Michel Zoghzoghi
Brincadeira realizada pela tribo Karo em Omo Valley, Etiópia. © Hesham Alhumaid
Crocodilo fotografado em mangue cubano. © Matthew Smith
Cavalos selvagens em Kimberley, Austrália. © Lauren Bath
Arco-íris em Cape Point, África do Sul. © Ajit Sn
Águas turquesas do Lago Louise no Parque Nacional Banff, Canadá. © Ben Leshchinsky

~ Compilação do The Atlantic aqui e aqui.

Os segredos da longevidade

As bactérias não envelhecem. Podem até morrer, caso ocorra algum acidente ou sejam privadas de alimentos, mas não envelhecem nunca. Tanto é que, no ano 2000, cientistas decidiram ressuscitar uma bactéria que havia ficado presa em um depósito de sal há 250 milhões de anos. Depois de reanimá-la e oferecer nutrientes, a bactéria simplesmente voltou a se reproduzir, como se o tempo não houvesse passado.

Outros animais também desfrutam do mesmo dom: é o caso da água-viva turritopsis dohrnii, do peixinho rockfish e de algumas espécies de tartarugas que vivem na América no Norte. Todos vivem sem prazo de validade, ao contrário de nós, humanos – e mortais. Pode até ser que você não resista 250 milhões de anos, como a bactéria ressuscitada, mas a ciência já é capaz de apontar o caminho para quem está em busca da longevidade.

Uma constatação importante sobre o assunto foi feita pelo pesquisador e escritor Dan Buettner, em parceria com a equipe da National Geographic, em 2004, quando se mapearam as cinco regiões do mundo onde a possibilidade de uma pessoa alcançar os 100 anos chega a ser 10 vezes maior que a de um morador comum dos Estados Unidos. Esses locais foram chamados por eles de “Zonas Azuis”.

Sem título

Mas qual o segredo desses lugares? Dan conta em seu livro The Blue Zones quais características são capazes de explicar a longevidade nestas regiões. São fatores compartilhados por estas zonas azuis que prometem ser o tempero que faltava para obtermos uma vida mais longa. Mas, primeiro, vamos conhecer esses lugares:

Japan-Flag-icon (1)Okinawa, Japão – É a província mais ao sul do Japão, composta por 169 ilhas, e também a região com o maior percentual de centenários no mundo inteiro.

Italy-Flag-iconSardenha, Itália – Uma ilha localizada em pleno mar Mediterrâneo, com um total de 1,65 milhões de habitantes, dos quais 371 já haviam completado 100 anos em 2012. A maior taxa de longevidade foi encontrada na região conhecida como Província de Nuoro.

United-States-Flag-iconLoma Linda, Estados Unidos – Uma pequena cidade da Califórnia que conquistou uma expectativa de vida dez anos mais alta que a média americana. Cerca de metade dos habitantes locais fazem parte da Igreja Adventista do Sétimo Dia, que segue regras rigorosas para descanso, alimentação e exercícios.

Costa-Rica-Flag-iconPenínsula de Nicoya, Costa Rica – Mais de 400 centenários vivem nesta região repleta de praias e montanhas. É o lugar em que existe o maior número de pessoas acima dos 100 anos no mundo.

Greece-Flag-iconIcária, Grécia – Estima-se que um terço da população de Icária irá chegar aos 90 anos. A estimativa é fácil de entender quando nos deparamos com taxas de incidência de câncer 20% menores e de doenças cardíacas 50% menores do que em outras regiões. A possibilidade de demência é praticamente nula na população.

Todas estas zonas apresentam algumas características em comum e elas podem ajudar a traçar o mapa de uma vida mais longeva, segundo as pesquisas de Dan Buettner:

Corpo em movimento

Nas zonas azuis, as pessoas não estão acostumadas a fazer exercícios – ou, pelo menos, não da maneira como nós estamos, reservando uma hora específica para realização de alguma atividade física. Ao contrário, eles se mantêm em movimento, sem precisar fazer muito esforço para isso.

Tanto na Sardenha quanto em Icária, por exemplo, grande parte da população é acostumada a pastorear animais, o que faz com que se mantenham em movimento. Manter um jardim em casa, caminhar até o trabalho ou simplesmente o fato de viver em um local com escadas também contribui para se manter em movimento sem precisar pensar muito sobre o assunto.

Alimentação

As dietas aplicadas por estas cinco comunidades possuem muitas coisas em comum. Enquanto o consumo de carnes é raro entre elas – em Loma Linda grande parte da população é vegetariana –, as frutas, vegetais e grãos são item indispensável na mesa. Por sinal, um estudo realizado pela Universidade de Loma Linda, em 2001, demonstrou que dietas pobres ou isentas de gordura animal podem presentear você com dois anos extras de vida, enquanto exercícios diários moderados são responsáveis por um bônus de 6 anos – em compensação, fumar pode subtrair de 10 a 11 anos dessa conta.

Obviamente, cada lugar tem sua particularidade no quesito alimentação: em Okinawa, existe uma prática conhecida como hara hachi bu, que significa comer até ficar 80% satisfeito. O que parece apenas uma tradição sem muito sentido tem mais embasamento científico do que você pode imaginar: diversos cientistas já assumem que uma dieta restrita seja o caminho para a longevidade. A tese é reforçada por experimentos que indicam que, ao comer 50% menos, os ratos são capazes de viver o dobro, e com saúde. Resultados semelhantes foram encontrados em estudos com peixes, aranhas, cachorros, moscas… Há indícios de que, sozinhas, as escolhas alimentares podem somar 13 primaveras à sua vida.

Bebem com moderação

Fora a cidade de Loma Linda, onde a população evita o consumo de álcool graças à religião, todas as outras zonas azuis aceitam sem problemas uma dose de bebida, mas seus habitantes também sabem consumi-la com moderação.

Espiritualidade

Independente da religião ou doutrinas, a fé se mostrou um ponto forte para essas comunidades longevas. É assim que a população de Loma Linda lida com sua religião, com forte apego à Igreja Adventista do Sétimo Dia ou que os habitantes da Península de Nicoya manifestam sua profunda fé em deus.

Frequentar serviços relacionados à fé pelo menos quatro vezes por mês pode adicionar até 14 anos na sua vida, independente da doutrina.

Senso de comunidade

Todas as regiões têm um profundo senso de comunidade: na Sardenha, a família está sempre em primeiro lugar; em Loma Linda, a Igreja é o lugar de reuniões e amizades; enquanto isso, em Okinawa, os habitantes possuem um grupo de amigos que os acompanha desde a infância até o fim de seus dias e com quem podem compartilhar as felicidades e tristezas da vida.

Propósito

Em Okinawa, Dan Buettner questionou aos habitantes qual o motivo que os fazia acordar pela manhã: todos sabiam exatamente o que responder. Na língua local, existe até mesmo uma palavra para definir esse proposto: ikigai. Segundo o pesquisador, ter um propósito pode render um bônus de 7 anos no jogo da vida.

blue9

Mas, acima de tudo, é importante saber: há grandes chances de você não chegar aos 100 anos. Mesmo que decida começar a seguir amanhã mesmo todas as indicações acima, sua probabilidade de chegar lá é bem baixa. Isso porque a genética também tem seu papel neste jogo – e estudos recentes indicam que apenas 15% das pessoas possuem genes que as predispõe à alta longevidade. E mais da metade dos centenários têm parentes que chegaram aos 100 anos. Mesmo assim, estima-se que o estilo de vida seja responsável por 70% deste cálculo.

Mas… digamos que você possa chegar até os 90 anos com saúde. Infelizmente, o próprio Dan Buettner mostra que apenas força de vontade não é suficiente para aumentar nossa expectativa de vida. Para mudar, é preciso transformar uma comunidade inteira e não apenas os seus hábitos, como ele explicou em uma palestra no TedMed:


Quem sabe um dia iremos chegar a um futuro próximo ao previsto no livro As Intermitências da Morte, de José Saramago, que inicia com a singela frase “No dia seguinte ninguém morreu”. No caso do livro, a (ir)responsável por isso era uma Morte com M maiúsculo, que havia simplesmente parado de realizar seu trabalho, resultando em um cenário de calamidade, onde os velhos quase imploravam pelo seu “descanso eterno”. Mas a velhice da realidade parece ser bem mais promissora que a encontrada na literatura: cerca de 2 terços dos idosos são completamente independentes para as atividades da vida diária.

Não é por acaso que a faixa da população que mais cresce no mundo é a dos idosos com mais de 100 anos – em 2015, o grupo deverá ser 20 vezes maior do que no ano 2000. Quando voltamos um pouco no tempo, fica fácil perceber os avanços já alcançados nesse sentido: entre os romanos, a expectativa de vida era de 20 anos e 90% da população morria antes de completar seu 46º aniversário. No Brasil, a expectativa média de vida era de 33 anos em 1900, hoje, esse número subiu para 68 anos, mais do que o dobro. Por enquanto, resta esperar e torcer para que, ao menos nesse quesito, estejamos cada vez mais próximos das bactérias.

blue11

~ Mari Dutra para o Hypeness.

A era da falta d’água

ss_1

Se você se comove quando vê imagens como esta aí no alto da página, melhor recolher as lágrimas e guardá-las. Vai piorar. O velho pesadelo dos ambientalistas de que as reservas mundiais de água doce vão entrar em colapso em algum momento do século XXI nunca esteve tão próximo de virar realidade. Um estudo das Nações Unidas divulgado este ano (essa matéria é de 07/2000) prevê que 2,7 bilhões de seres humanos – 45% da população mundial – vão ficar sem água no ano 2025. O problema já afeta 1 bilhão de indivíduos, principalmente no Oriente Médio e norte da África. Daqui a 25 anos, Índia, China e África do Sul deverão entrar na estatística. “Nesses lugares, as reservas deverão se esgotar completamente”, alerta o autor do estudo, o geólogo Igor Shiklomanov, do Instituto Hidrológico Estatal de São Petersburgo, Rússia.

O precário abastecimento d’água desses lugares vai falir, por vários motivos. “Nos últimos cinqüenta anos, a população mundial triplicou, e o consumo de água aumentou seis vezes”, sintetiza o ecólogo paulista José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de Ecologia. Com a população cresce também a agricultura, a atividade humana que mais consome o líquido. “Os países em desenvolvimento vão aumentar seu uso de água em até 200% em 25 anos”, disse Shiklomanov à SUPER.

Gente demais já basta para tornar a situação aflitiva em um terço do planeta. Para piorar, a saúde dos rios – as principais fontes de água doce da Terra – está piorando. Metade dos mananciais do planeta está ameaçada pela poluição e pelo assoreamento. Só a Ásia despeja anualmente em seus cursos d’água 850 bilhões de litros de esgoto. E cada litro de sujeira num rio inutiliza 10 litros da sua água. “A humanidade sempre tratou a água como um recurso inesgotável”, explica o hidrogeólogo Aldo Rebouças, da Universidade de São Paulo (USP). “Estamos descobrindo, da pior forma possível, que não é bem assim.” Não se iluda. Vem aí a era da falta d’água.

Mas calma. As previsões são turvas, é verdade. Só que não estamos inexoravelmente condenados a entrar pelo cano. Os mananciais degradados podem ser despoluídos. Novas técnicas de tratamento cada vez mais reutilizam a água do esgoto em países desenvolvidos. Melhoraram, bastante, as condições técnicas e econômicas para a exploração de fontes alternativas, como a dessalinização da água do mar.

E nem só processos caros e sofisticados oferecem soluções para a crise. É o caso da remota vila de Baontha-Koyala, no noroeste da Índia. Seus habitantes não tinham uma gota d’água para beber até meados da década de 80. No final dos anos 90, recuperaram seus lençóis subterrâneos e o principal rio da região voltou a ter água. O que fizeram? Simples. Cavaram poços no quintal das casas para recolher água de chuva. É o óbvio. Mas ninguém havia feito antes. O exemplo serve para o Nordeste brasileiro. É só usar a cabeça.

Disneylândia toma, feliz, esgoto reciclado

Os moradores de Orange County, no Estado americano da Califórnia, bebem esgoto há mais de vinte anos, sem problema. Parece nojento, mas não é. O reúso foi a solução encontrada para que o lugar não secasse. Seria uma pena. Além de 2,5 milhões de habitantes, Orange County abriga o parque temático mais famoso do mundo, a Disneylândia.

No final da década de 60, o lençol subterrâneo que abastece a região já estava superexplorado pela irrigação de extensas plantações de laranja. Com a redução do nível do aquífero, o sal do Oceano Pacífico começou a infiltrar-se ali, ameaçando o abastecimento. Se a fonte fosse contaminada, seria o fim. O condado fica num deserto e depende totalmente da água subterrânea.

Para revitalizar o manancial, os californianos criaram a Fábrica de Água 21, uma usina-piloto de tratamento especializada em purificar esgoto e injetá-lo de volta no solo (veja o infográfico abaixo), para reencher o lençol. Hoje, além do aquífero permanentemente cheio, Orange County evita a contaminação pela água do mar e garante seu próprio abastecimento. Com esgoto? Exatamente. “No subsolo, a água do reúso, devidamente tratada, acaba se diluindo na água fresca subterrânea”, explica Aldo Rebouças, da USP. As próprias rochas do subsolo, que são porosas, ajudam a filtrar naturalmente toda a massa líquida. “Depois de um ano ela está purificada”, diz Rebouças.

Sem título

Não é só a Califórnia que recicla água. “No Arizona, 80% do esgoto também volta às torneiras”, afirma Andy Richardson, da empresa de engenharia ambiental Greeley e Hansen, em Phoenix. “Reúso é a palavra-chave quando se fala em gestão de recursos hídricos”, ressalta o engenheiro ambiental Ivanildo Hespanhol, da USP. Reciclar água representa não só alívio para as reservas do líquido como também para o bolso do consumidor. Em países ricos e carentes de fontes naturais, como o Japão, a retirada de água fresca dos reservatórios é taxada pesadamente. Sai bem mais barato reutilizar. “Em 1997 o país reutilizou 77,9% de toda a água destinada à indústria”, afirma Haruki Tada, do Departamento de Recursos Hídricos da Agência Nacional da Terra. Os rejeitos da indústria ficam por lá mesmo. São empregados também para lavar os trens e metrôs e irrigar jardins públicos. No Brasil – só pra você acordar –, tudo é feito com água potável.

Brasil tem escassez na fartura

Imagine um país que detém, sozinho, 16% do total das reservas de água doce do planeta. Que tem ao mesmo tempo o maior rio e o maior aquífero subterrâneo do mundo. Que, para causar inveja, ainda apresenta índices recorde de chuva. Esse país existe. E, como você sabe, suas maiores cidades sofrem racionamento de água.

O Brasil não usa nem 1% do seu potencial de água doce. Ainda assim, metrópoles como São Paulo e Recife enfrentam colapso no abastecimento público. O que acontece? Segundo os especialistas, o problema é só mau gerenciamento. “Temos rios degradados, índices de perda assustadores nas companhias de água e um desperdício inconcebível por parte da população”, enumera José Almir Cirilo, presidente da Associação Brasileira de Recursos Hídricos, em Recife. É claro que o crescimento desordenado das cidades ajuda a piorar. “Sem planejamento não há proteção de nascentes nem dos reservatórios naturais. Isso custa caro para as companhias e para a sociedade, pois depois será preciso despoluir a água ou trazê-la de outro lugar”, diz a coordenadora do Programa Nacional de Combate ao Desperdício de Água, Claudia Albuquerque.

São Paulo, que este ano começou a racionar depois de apenas dois meses de seca, é um caso exemplar. A cidade matou sua maior fonte de água, o Rio Tietê. Hoje, é obrigada a tirar metade do que consome de uma bacia hidrográfica vizinha, a do Rio Piracicaba. A Companhia de Água e Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) fornece a cada um dos 16 milhões de moradores da região metropolitana 370 litros de água por dia – o triplo do mínimo necessário para uso humano. Só que o desperdício na rede de água chega a quase 40% – o equivalente à média brasileira –, enquanto o aceitável no mundo é metade disso! Toda essa água escapa por furos nos canos, redes defeituosas carentes de manutenção e por ligações clandestinas.

São Paulo joga fora, por dia, 1 bilhão de litros de água. Isso equivale ao volume da Represa de Guarapiranga, um dos seus quatro reservatórios. Para compensar as perdas, há anos os depósitos são explorados acima da recarga média – tira-se mais água por dia do que os rios e as barragens conseguem repor. Deu no que deu.

O desperdício nosso de cada dia

Se as perdas de água na rede pública são difíceis de controlar, dentro de casa elas não podem sequer ser medidas. “O brasileiro é acostumado a uma conta de água barata e não faz o menor esforço para evitar o desperdício”, reclama o ecólogo José Galízia Tundisi. A água pode vazar pelo ladrão de caixa-d’-água com defeito. Ou ser empregada além do necessário para tarefas cotidianas. Tomando banho com o chuveiro ligado durante 15 minutos, você joga fora 242 litros de água pura – suficiente para escandalizar um israelense –, quando é possível gastar só 81 litros para isso.

As maiores vilãs domésticas são as válvulas convencionais de descarga. Elas usam nada menos que 40% de toda a água da casa. Cada segundo que você fica com o dedo na descarga são 2 litros de água que entram – aliás, saem – pelo cano. Seu amigo israelense ficaria louco.

Para combater o desperdício doméstico, muitos países precisaram baixar leis rigorosas. Nos Estados Unidos, todas as casas construídas depois de 1995 são obrigadas a ter descargas com caixas de 6 litros, bem mais econômicas. “Hoje é proibido até vender peças de descarga convencional no país”, diz Clyde Wilber, da Greenley e Hansen, em Washington. Como as novas caixas são bem mais caras, os americanos tentaram dar um jeitinho: passaram a contrabandear descargas do Canadá. O governo endureceu. “Se alguém te pega com uma válvula convencional na mala, você pode ir pra cadeia”, conta Wilber.

Sem título1

No Japão já existem programas de reciclagem dentro de casa. Além dos canos que trazem água potável, os prédios ganharam um segundo sistema hidráulico, que recolhe e trata a água para o reúso (infográfico acima). O sistema ainda é experimental e, por enquanto, custa caro. Mas pode ser uma alternativa para aproveitar cada gota num mundo onde o líquido precioso está cada vez mais escasso. Prepare-se. Na era da falta d’água, mesmo você, felizardo brasileiro que possui 16% da reserva potável do mundo, vai pagar mais caro por ela.

~ Claudio Angelo, Mariana Mello e Maria Fernanda Vomero para a Revista Superinteressante.

<<OUTRAS IDEIAS>>

page

Espremendo nuvens: a vila de Chugungo, no litoral norte do Chile, é tão seca, mas tão seca, que seus moradores precisam espremer a neblina para ter o que beber. Parece piada, mas é exatamente o que acontece. Desde 1992, os 600 moradores do lugarejo se abastecem exclusivamente da água coletada das névoas de uma montanha a 6 quilômetros dali. Para aproveitar a umidade natural do lugar, um grupo de pesquisadores da Universidade Católica do Chile instalou redes de náilon batizadas de trabanieblas (pára-névoas, em espanhol) no alto da montanha. Em contato com elas, a neblina forma gotículas que são levadas por canos até a caixa-d’-água de Chugungo. “Chegamos a coletar 40 000 litros em um dia”, comemora a geógrafa Pilar Cereceda, que implantou o projeto. “Dá para abastecer a vila por cinco dias.”

Deserto derrotado: ninguém entende tanto de seca quanto os israelenses. Eles moram em um deserto onde chove metade do que cai no sertão do Ceará e onde quase não há rios. A maior parte da água é coletada em lençóis subterrâneos, cada vez mais deteriorados pelo acúmulo anual de 350.000 toneladas de sal presente no solo. Ainda assim, Israel mantém uma agricultura intensiva e uma produção de 2,2 bilhões de metros cúbicos de água doce por ano. O milagre tem dois nomes. O primeiro é o reúso. “Dois terços dos esgotos do país são reciclados”, afirma Uri Shamir, diretor do Instituto de Pesquisa de Água, em Haifa. “A intenção é chegar a três quartos nos próximos anos.” As águas residuais são tratadas para irrigar lavouras e jardins públicos, e também para revitalizar os rios. A segunda parte do milagre – e, segundo os especialistas, o futuro do abastecimento do país – é a purificação da água do mar e dos depósitos salobros subterrâneos. Israel tem hoje cinqüenta usinas de dessalinização. Até a década passada, o método de dessalinização consistia em esquentar a água em câmaras metálicas até separar o sal do vapor. Custava caro pois demandava muita energia. Hoje, as dessalinizadoras funcionam usando a tecnologia da osmose reversa. Na natureza, a osmose é a passagem de um solvente para aquilo que vai ser dissolvido. A osmose reversa recupera na solução salina a água solvente. Usando uma membrana de poliéster dentro de um cilindro, onde a água é empurrada a uma pressão oitenta vezes maior que a do ar, é possível inverter o processo natural. Ou seja, faz-se o líquido atravessar a barreira e deixar o sal. A tecnologia é três vezes mais barata que a utilizada na evaporação. E consome bem menos energia.

Estádio japonês colhe chuva no teto: o Tokyo Dome não é só um dos principais cartões-postais da capital japonesa. O estádio também é um dos projetos arquitetônicos de aproveitamento de água mais criativos do mundo. O teto do Big Egg (Grande Ovo, em inglês), como é conhecido, é feito de um plástico ultra-resistente que pode ser inflado ou desinflado a qualquer momento. A cobertura funciona como uma lona gigante para colher as chuvas. A água que é captada ali vai para um tanque no subsolo, onde é tratada e distribuída para os banheiros e para o sistema de combate a incêndio do prédio. Um terço da água empregada no Tokyo Dome durante o ano inteiro chega assim, do céu. De graça.

A Terra tem 1,4 bilhão de quilômetros cúbicos de água. A parte doce corresponde a míseros 2,5% desse total. Só que 68,7% disso está nos pólos, em forma de gelo, e 29,9% em lençóis subterrâneos. Os rios e lagos, de onde a humanidade tira quase toda a água, só concentram 0,26% do total disponível do líquido. É preciosa, MESMO.