O que aprendi com o silêncio

Compartilho com você um vídeo precioso da entrevista com Márcia Baja, no canal do lugar no YouTube:


Pare tudo por meia hora e deixe que sua mente ganhe clareza sobre a prática do silêncio:

A meditação não é um processo no qual vamos abandonar a vida ou criar algum tipo de vida paralela, mas ao contrário: ela vai nos tornar muito vivos. Porque ela vai nos colocar no coração das experiências. Não vamos mais ter uma sensação de estar lidando com coisas externas que tem poder sobre nós. Ela vai nos mostrar como as coisas acontecem e como participamos delas. Então a meditação eu diria que é científica, não tem nada de religioso nisso.

Sobre as relações:

Precisamos penetrar nessas regiões escuras da nossa carência, da nossa solidão, dos nossos desejos, dos nossos medos todos… e iluminar isso para que a gente não jogue isso em cima do outro, quando o encontrar.

Sobre o esforço para se tornar alguém:

Se você quiser evitar esse obstáculo da identidade, do esforço, das metas, você tem de ir direto para esse ponto onde você vai relaxar de você mesmo, relaxar disso que você acha que é.

E sobre as qualidades naturais que surgem espontaneamente da sabedoria:

Quando você olha para as coisas desde essa região livre, sem aflições, sem apegos, você vê a confusão das pessoas. Você vai ver as pessoas no mesmo lugar onde você estava, aí brota compaixão. […] Essas qualidades naturais de amor, de compaixão, de generosidade, de paciência, de conduta adequada, de energia disponível, constante, jorrando do seu coração, habilidades potencializando tudo e todos… Você se vê às vezes surpreso de sentir isso jorrando de seu coração sem você fazer esforço nenhum, simplesmente porque você está silenciado nesse lugar de sabedoria olhando para as coisas.

~ Gustavo Gitti em texto recebido por e-mail.

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Delicadeza poética

Nada melhor para combater a agitação diária do que uma pausa para pensar no mais singelo da vida. E se você precisa de inspiração para encontrar essa leveza, o Tumblr Prosa de Cora pode ajudar.

O perfil de apresentação do site não dá muitas pistas sobre a autora, conta apenas que “Cora é todo indivíduo que gosta de sentir cheiro de biscoito saindo do forno, ler jornal, recortar frases favoritas para fazer colagens, suspirar, sentir borboletas no estômago, ouvir cigarras e prosear”.

O trabalho, no entanto, fala por si: ilustrações simples e delicadas acompanham frases que vão do romântico ao poético, passando por situações cotidianas cheias de poesia.

E se você quer essa dose de beleza no celular, também pode seguir o perfil no Instagram e no Facebook.

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~ Blog da Eliana.

A escalada para a maturidade

Amadurecer nunca é fácil. É um grande processo de autoconhecimento até nos tornarmos seres humanos completos, serenos e ponderados.

A imagem The Maturity Climb ilustra essa transição em três fases divididas em cores: rosa (denota a parte inferior da subida ou a imaturidade), creme (a fase de transição) e verde (a maturidade). O caminho aponta que para baixo está o egoísmo, a subjetividade e a vingança. Para cima, o controle sobre si mesmo, objetividade e prevenção.

Quais desses bodes é você? Qual deles você gostaria de ser?

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clique na imagem para ampliar

E, se você não manja tanto de inglês, a gente dá uma forcinha:

Um ser imaturo seria alguém que:
– Culpa o mundo pelos problemas (blames world for problems)
– Assume o pior de todo mundo (assumes the worst of everyone)
– Despreza os esforços das outras pessoas (scorns other’s efforts)
– Tem medo (is afraid)
– É inconsequente (sees no flaws)
– É obcecado por status (obsessed with status)
– Pensa que é sobre a idade (think it’s about age)
– Se auto-intitula (entitled)
– Leva tudo para o lado pessoal (takes everything personally)
– Joga problemas para os outros (takes out problems on others)
– Tem que estar certo (has to be right)
– Não admite responsabilidade (can’t admit responsability)
– Foca nas diferenças (focuses on differences)
– Manda e exige (tells / asks)
– Sabe tudo (knows everything)
– Morre e ganha só algumas batalhas (died | won some battles)

No meio termo, entre maduro e imaturo:
– Despreza a indiferença (scorns indolence)
– É determinado (does it anyway)
– Quer solucionar os problemas (wants to fix them)
– É obcecado por questionamentos (obsessed with questioning)
– Sabe que não tem a ver com idade (knows that it bloody well isn’t)
– Nasceu para escalar (is build for climbing)

Um ser maduro seria alguém que:
– Culpa a si mesmo pelo mundo (blames self for world)
– Assume o mínimo possível sobre as pessoas (assumes as little as possible)
– Quer ajudar (wants to help)
– Foca em ter amigos (focuses on having friends)
– Respeita a inteligência alheia (respects others’ intelligence)
– É obcecado por fatos (obsessed with facts)
– Fala de problemas com os outros (talks out problems with others)
– Não tem medo de cair (ou falhar) (isn’t afriad to fail)
– É um bom ouvinte (listens)
– Conhece limites (knows limits)
– É grato (grateful)
– Não sabe nada (knows nothing)
– Morre feliz, ganhou a guerra (died happy | won the war)

~ Update or Die!

“Onde não puderes amar não te demores”

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Sai, corre logo. Afasta-te das ventanias cruéis que ameaçam revirar-te a vida e os sonhos pelo avesso. Aqueles pedaços de histórias rotas e cerzidas, atiradas no cesto de roupas de sorrir — e que já usaste tantas vezes em festas enxovalhadas. Foge das tempestades. Das estradas sem rumo. Das folhas ressequidas, espalhadas em terrenos áridos e desconexos.

Rejeita os lábios que não beijam mais e dos quais escorre apenas amargura, fel e impropérios. Sim. Tranca a porta, os ouvidos, a sensatez e vira as costas sem remorsos para tudo o que te causa mal e tristezas. Teus dias pinta-os com aquarelas leves e doces, mescladas a tons pastel.

As horas não devem ser transformadas inexoravelmente em cinzas, quem te disse? Embora saibamos que se trata de horas mortas, inertes em relógios de parede enferrujados pelo cansaço. Relógios, cujos ponteiros foram derretidos pelos vastos incêndios que se apossaram silentes da tua alma atônita.

Sai! Despede-te rapidamente das águas turvas, habitadas apenas por sinuosas enguias. Não enxergas peixes dourados, nem vermelhos? O lodo não te serve, então. Tampouco a escuridão de um dia sem sóis nem estrelas. As árvores morreram, alguns tocos ainda repousam no jardim abandonado. Raízes secas gemem por água. Mas o jardineiro se foi, levando junto com as despedidas os antigos cuidados dispensados ao verde que aí vicejava.

Há esconderijos disponíveis para cultivar a paz. Um sentimento que parece ter escorrido pelas vielas de tempos imorredouros. Olha e te surpreende. Pois há linhas de seda para tricotar novas promessas de amores leves, já nascidos com asas. Amores azuis que flertam com a presença suprema da liberdade.

Se porventura entrares num bar escuro e sujo e perceberes que os frequentadores flertam somente com o álcool mantendo o rosto duro, impassível e macilento. Os olhos de pedra fosca cravados no fundo do copo, no qual mágoas flutuam sobre escassas pedras de gelo, não te aproximes. Abandona o recinto. Pois aí não há amor. Somente amarguras e nostalgias graves e empoeiradas

Foge também de quem tiver o aperto de mão indiferente e áspero, os sorrisos ausentes no rosto exausto de mentiras, o nariz empinado de arrogâncias vãs.

Despreza indivíduos sem ouvidos, concentrados em lamber unicamente a própria fala. Àqueles aficionados em solilóquios, em discursos sem eco, voltados regiamente para o próprio espelho das vaidades, adornado pelo gigantismo do ego.

Alheia-te também de quem perdeu os braços de abraçar. Esqueceu-se de abrir as janelas para as visitas das alvoradas e lacrou os sentidos para os cantos felizes dos pássaros matutinos.

Os que não regam plantas. Pais que esquecem crianças trancadas no carro, enquanto se deleitam em levianas compras nos shoppings. Não entres jamais em casas onde não se escuta música, aonde o fogão chore de desusos, sem o cheiro vivo do feijão fumegando delícias.

Não te acomodes nunca em mesas sem toalhas, copos, nem talheres, antes destinados a servir convidados sempre ausentes. Ninguém aparecerá para o almoço inexistente. Pois faltam amor e acolhimentos.

Não te esqueças de cerrar em seguida as cortinas do coração para os que desprezam a luz, as cirandas e as crianças. Os que chutam por tédio pequeninos animais órfãos, perdidos a esmo nas ruas. Refuta com veemência as trepadas mornas e maquínicas exigidas pelo marido ou namorado, cujas ardorosas amantes tu intuis, certamente.

O bom sexo demanda uivos gloriosos, saudáveis e selvagens desatinos. Assim, aguarda paciente pela entrega plena e desarmada. Ela virá sem avisos prévios e te surpreenderá com danças e valsas. Recusa de imediato o namoro insípido, porque não há sal que dê jeito em afetos falidos.

Outro alerta: desanda a correr da inveja, do escárnio, do ódio fantasiado de gentilezas em oferta. Todas elas por R$ 9,99. Este pacote de desmazelos se acumula no enfado e no desamor de lojas vazias. A maldade ronda a vizinhança, se intromete em eclipses, passeia com os pés descalços em imensos desertos brancos.

Mas lá tu não irás, temos certeza, pois falta amor — teu coração já anunciou. Além disso, felizmente também contas com os afáveis sussurros da natureza, que entremeiam tuas histórias e caminhos, sempre rodeados de ideais e de esperanças.

~ Graça Taguti para a Revista Bula.

*A frase-título desta crônica é do poeta e escritor brasileiro Augusto Branco – falsamente atribuída a pintora mexicana Frida Kahlo.

Você só tem 3 problemas

Quando começa a doer e surge a necessidade de algum tipo de reorientação, a maioria das pessoas busca por uma técnica isolada, por um terapeuta, por um curso, por um medicamento. Isso é equivalente a começar a listar companhias aéreas antes de saber qual cidade queremos visitar.

Como nunca antes tivemos acesso a tantas abordagens que se dizem transformadoras, é muito fácil nos perdermos, ficarmos reféns, dependentes — e distraídos, cada hora pirando em um novo método.

Em vez de pensarmos em técnica, deveríamos pensar em processo. O que acontece internamente quando uma pessoa reduz o ciúme, a ansiedade, a depressão, a raiva? E como eu posso entender mais e me apropriar desse processo sutil?

Quando eu me proponho a fazer uma viagem, eu faço uso de companhias aéreas, guias, hotéis, livros, mas sei que meu caminho não se restringe a tais apoios. Sem tal clareza, sou facilmente enganado por alguma empresa de turismo. Do mesmo modo, quando eu me aproprio de minha própria transformação, aí sim as técnicas e os métodos ganham sentido.

“Estamos transferindo nosso equilíbrio para medicamentos. Ou para outras pessoas cuidarem de nós: a gente precisa fazer massagem, precisa de um terapeuta… Quando na verdade nós precisamos ser doutores de nós mesmos. Quando sento e o corpo não querer parar, eu não entendo nada do meu corpo, eu não sei como acalmá-lo… Fazendo essa experiência, deveríamos sair daqui bastante inquietos. Como é que eu não sei ficar parado? Isso é muito curioso.” ~ Márcia Baja

Você é convidado para um fim de semana com um cara barbudo que se diz iluminado e coloca sua autoridade em um professor indiano de nome estranho que ninguém nunca viu. Você encontra mais de 200 pessoas cantando “Om” com os braços para cima, fazendo ásanas, estudando apostilas… Se você não tem clareza do processo que realmente pode transformar sua mente, se você não tem esse referencial interno, como saber se esse indiano barbudo — com suas técnicas, ensinamentos e comunidades — pode ajudá-lo?

Se a gente entende o trabalho a ser feito, fica fácil trucar alguém supostamente iluminado nos dizendo o que devemos fazer. Se a gente entende o que é o ciúme e mais ou menos quais tipos de práticas nos ajudariam a liberá-lo, por exemplo, fica mais fácil encontrar essas práticas. E assim por diante. É um jeito de nos empoderarmos nesse subterrâneo do florescimento humano.

Tenho visto que muita gente sequer começa a praticar porque não tem noção de que tal transformação é possível. O que chega para as pessoas nessa condição são práticas isoladas, muitas envoltas de crenças e linguagens específicas que acabam confundindo. Mesmo alguns que alegam ceticismo infelizmente só dialogam com os discursos empacotados que chegam sobre espiritualidade, felicidade etc. Ao fugir dos embustes, eles criam aversão a qualquer percurso. Jogam o bebê junto com a água do banho.

Close up of puzzle with missing pieces

Três problemas

Se é tão importante compreender quais seriam os processos que estão por trás do florescimento humano, por onde começar? Um jeito simples é investigar as raízes mais básicas de qualquer problema. A porta de saída fica mais visível quando mapeamos a estrutura da prisão. São duas faces da mesma coisa.

Quando sofremos, não importa o conteúdo da situação (as histórias, os pensamentos, as razões aparentes), podemos observar bem nitidamente três movimentos:

1) Não conseguimos parar e repousar. Reagimos e condicionamos nossa energia aos movimentos dos outros e da vida.

2) Entramos em algum jogo sutil e perdemos contato com a realidade.

3) Não conseguimos olhar para o outro em seu próprio mundo e agir para beneficiá-lo.

Descrevendo de outro modo, nossa mente normalmente está: 1) reativa, agitada, fixada, emocionalmente dependente, tensa, aflita, alternando entre torpor e distração; 2) deludida, crente, séria, condicionada, enganada em jogos, identidades e bolhas; 3) autocentrada. Para resumir ainda mais: sofremos por ausência de equilíbrio, sabedoria e compaixão.

Todos os nossos sofrimentos são causados por uma combinação dessas três causas. Eis uma afirmação ousada e revolucionária que não vem de mim, mas das mulheres e dos homens mais sábios e amorosos que já andaram nessa terra.

É possível descrever tudo como apenas um problema: uma espécie de ignorância de nossa natureza, uma cegueira que gera todo o resto. Ao mesmo tempo, é possível refinar e desdobrar cada problema ao extremo, gerando uma ciência incrivelmente detalhada de como a operação de uma mente sem equilíbrio, sem sabedoria e sem compaixão acaba produzindo 84.000 aflições sutis, que por sua vez produzem os trilhões de problemas grosseiros que tanto conhecemos.

Para um ser livre desses três problemas pode acontecer qualquer coisa que não haverá uma grande complicação. Haverá espaço para lidar com qualquer que seja a situação, mesmo as mais extremas, como no exemplo de Palden Gyatso, preso e torturado por 33 anos. Quando Sua Santidade o Dalai Lama perguntou “Qual foi o pior momento nesse tempo de prisão?”, Palden Gyatso respondeu: “O pior momento foi quando eu quase senti raiva, quando quase perdi o amor e a compaixão pelos meus irmãos e irmãs da China.”

O bom de encarar 10.517 problemas como apenas três é que não precisamos de 10.517 novos hábitos e mudanças. Precisamos de apenas três tipos de treinamentos.

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Três frentes de práticas transformadoras

Se observamos uma pessoa que está florescendo (cada vez mais presente, livre, generosa, leve, alegre, estável, benéfica, disponível), também podemos enxergar alguns movimentos bem nítidos. Por didática e para facilitar a conversa, aqui vou descrever três processos e as frentes de prática que os favorecem. São antídotos perfeitos para nossos três problemas fundamentais.

Não mencionei cultura de paz, ética e organização da vida, pois isso está implícito. E deixei apenas um exemplo de cada frente pois uma lista completa exigiria um trabalho gigantesco (peguei duas práticas seculares e uma que é encontrada no Advaita Vedanta) — a ideia é apenas mostrar como é possível ganhar clareza sobre esses processos.

1) Equilíbrio. Como parar? Aprendemos a soltar, respirar, repousar, relaxar, pacificar, serenar, aquietar, não responder, não reagir, estabilizando corpo e mente sem flutuar tanto com as condições externas. Sem parar, é impossível mudar nosso movimento: nascemos, somos levados daqui pra lá, e morremos. Aqui entram os métodos e práticas que nos levam a cultivar a atenção, o equilíbrio emocional e a energia autônoma.

2) Sabedoria. Quem sou eu? Onde realmente estamos? O que está acontecendo? Quanto mais paramos, mais conseguimos olhar. Aqui entram os métodos que nos levam a investigar o funcionamento da mente e das emoções, as bases de cada relação, as causas do sofrimento e da felicidade, a natureza dos fenômenos, dos sonhos, da realidade, de todas as questões existenciais. Ganhamos clareza sobre os processos mais sutis do viver ao morrer. Como um pensamento surge, se mantém e cessa? Nossa visão se amplia além dos referenciais, identificações e condicionamentos, livre de delusão e ignorância, quebrando a rigidez das concepções arbitrárias sobre quem somos ou sobre o que é a vida, sem qualquer tipo de jogo ou alucinação. Qualquer construção é vista a partir do espaço amplo da realidade, qualquer situação se torna trabalhável, flexível, plástica, aberta. Começamos a brincar, a sorrir mais.

3) Compaixão. Como podemos nos ajudar uns aos outros? Como posso ser útil? O que tenho a oferecer? O olho da sabedoria torna a compaixão inevitável. Aqui entram os métodos que nos levam a realmente cultivar (em prática formal e também no cotidiano) empatia, amor genuíno, generosidade, alegria, equanimidade, ação lúcida no mundo, motivação de reduzir o sofrimento e aumentar felicidade genuína, capacidade de se relacionar com a liberdade do outro, capacidade de entrar em qualquer mundo, não se abalar, acolher, espelhar, estimular, direcionar, cortar, dançar, liberar, operar em rede, beneficiar por infinitos meios hábeis e linguagens, favorecendo o florescimento de qualquer pessoa que se aproximar.

“Como repousar?” abre as práticas de equilíbrio.

“O que está acontecendo?” abre as práticas de sabedoria.

“Como posso ajudar?” abre as práticas de compaixão.

Imaginem uma pessoa se debatendo em um lago. A primeira coisa que ela precisa fazer é parar de se debater. Depois, ela pode usar essa calma para olhar ao redor, ver o que tem no fundo da água, por que os outros se debatem tanto etc. Vendo que qualquer um ali tem o potencial de viver de modo mais amplo, sem tanto sofrimento, com equilíbrio e sabedoria é natural que brote compaixão, que ela se relacione com as outras pessoas ajudando quem continua a se debater.

As práticas de equilíbrio nos preparam para as práticas de visão, que nos preparam para as práticas do coração. Podemos também começar pela compaixão: se quisermos ajudar alguém, vamos precisar de equilíbrio e sabedoria. E podemos entrar em qualquer situação com sabedoria porque ela também nos leva a equilíbrio e compaixão.

São esses cultivos do mundo interno que mexem nas bases mais profundas da vida, não importa qual seja sua cara externa. Sem essa clareza, é muito comum detectarmos o problema do ciúme, digamos, e dizer “Vou tentar ser menos ciumento”, sem saber como de fato treinar uma mente menos ciumenta.

Olhe seu caminho e veja se está avançando nessas três grandes frentes. Veja se você conhece práticas específicas para cultivar equilíbrio, sabedoria e compaixão, uma combinação de corpo parado (relaxado, estável, atento, não perturbado), olhos lúcidos (livres de enganos, referenciais, seriedades, condicionantes) e coração aberto.

Há ótimos métodos de equilíbrio que quase não falam em compaixão e em sabedoria, por exemplo. Você encontra ensinamentos muito sábios que às vezes foram desconectados das práticas que poderiam abrir tal clareza. Há abordagens muito compassivas, de bom coração, mas que não enfatizam tanto a necessidade do treino da atenção e do desenvolvimento de sabedoria. Há métodos mais completos que incluem todos os treinamentos com bastante profundidade. E assim por diante…

Olhe também para as pessoas ao redor. Quando alguém vem dizendo que está há 10 anos fazendo “tal coisa”, observe se a prática de “tal coisa” a levou a aprofundar os processos de equilíbrio, sabedoria e compaixão. Ela está cada vez mais estável e não reativa? Ela está cada vez mais com a visão ampla, sem tanta seriedade, sem tanta fixação a bolhas e jogos, sem tantas teorias sobre como a vida deveria ser — ou está pirando cada vez mais em alguma ideologia? Ela consegue ouvir os outros em seus próprios mundos, beneficiando todo mundo que alcança, oferecendo mais do que pedindo? Não observe com a intenção de julgar, mas para ajudar e para você mesmo saber onde focar seu caminho.

Conversando assim, agora temos um referencial interno para saber o que funciona. Não é mais um papo abstrato e exteriorizado sobre técnicas, que não faz muito sentido (“Terapia funciona ou não funciona? Meditação funciona ou não funciona?”), mas um papo sobre processos, sobre o nosso próprio caminho, sobre a nossa vida.

~ Gustavo Gitti para o Papo de Homem.